O principal motivo do enorme e merecido sucesso alcançado por “Corra !” (2017) foi a habilidade com que o diretor Jorda Peele tratava a divisão racial nos Estados Unidos e a opressão sofrida pela comunidade negra, usando a linguagem do filme de terror. Mas não foi o primeiro filme a tratar do tema visitando o gênero. Entre outros, foi precedido por “O Mistério de Candyman”, que Bernard Rose dirigiu em 1992, sobre um fantasma vingativo que reaparece para se vingar cada vez que seu nome é pronunciado cinco vezes na frente de um espelho. Esta foi uma história sobre afro-descendentes contada de uma perspectiva eminentemente branca. Decorridos 30 anos, o diretor de “Corra !” e “Nós”, co-roteirizou e produziu uma espécie de sequência “espiritual” sobre o personagem, com uma visão (direção de Nia DaCosta) mais aguda envolvendo a questão racial nos EUA.

"A Lenda de Candyman": o filme é bom, tem imagens atrevidas e surpreendentes
"A Lenda de Candyman": o filme é bom, tem imagens atrevidas e surpreendentes | Foto: Divulgação

Este “A Lenda de Candyman”, que está em várias salas da cidade, traz o protagonista como um artista criador de uma série de pinturas para falar sobre as pressões que alguém negro enfrenta, no meio artístico, para atender as demandas de um público majoritariamente branco. E o roteiro também propõe criticas à pretensão inerente à indústria da arte, aos processos de amnésia coletiva e destruição da identidade cultural das cidades, resultante da gentrificação urbana – mudanças na paisagem das cidades, descaracterizando usos, costumes e significados traumáticos da história de bairros para atrair especuladores imobiliários e moradores de alta renda.

Mas é claro, tratando-se de um roteiro repleto de ideias, que o filme tem seu alvo preferencial: o trauma que aqueles de pele negra sofrem em um país que sistematicamente os trata como monstros. Na verdade, aqui a entidade assassina do título nada mais é do que um produto da brutalidade policial, da dor e da fúria que a repressão gera entre a comunidade afro-descendente. Ele é antes um vingador do que um vilão.

O filme é bom, faz lembrar que Hollywood quando quer e tem por trás boas cabeças pode fazer um trabalho incisivo sobre divisões sociais. Tem imagens surpreendentes e coisas atrevidas a dizer. É sangrento como o tema exige, mas também socialmente relevante. Mas há um problema.

Lugar comum: no geral, cineastas não confiam nas imagens, e por isso explicam tanto. Será? Pelo que se vê neste “A Lenda de Candyman”, e pelo que Jordan Peele mostrou nos seus dois primeiros filmes, não acho que se possa dizer que gente que faz cinema não confia nas imagens, imagens poderosas que permanecem. Parece que há um trabalho pensado e muito elaborado quanto ao visual, mas mesmo as imagens falando por si a palavra aqui é o que mais predomina. E redunda. Peele e DaCosta recorrem demasiado à palavra, como se a alegoria que constroem dependesse antes de tudo do verbo. Mas o verbo aqui é excesso.

mockup