A lenda ainda está viva
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de março de 1998
Ranulfo Pedreiro 
Arquivo FolhaMade in Brazil: disco traz de volta o velho, bom e básico rockandrollA empregada ouvia a novela pelo rádio enquanto Oswaldo Vecchione se irritava com a chuva que o impedia de brincar no quintal. Assim que a garota se distraiu, Vecchione mudou de estação e deu de cara com uma música de Little Richard. Ficou vidrado com o ritmo e, junto com o irmão Celso, passou a torrar a mesada em discos de rock.
A idéia de formar uma banda veio com um show de Bill Halley em São Paulo. Os irmãos resolveram investir na música e, na ânsia de comprar uma guitarra e um amplificador, desviaram a mensalidade da escola. A coisa ficou feia quando ambos foram impedidos de assistir às aulas por atraso no pagamento e levaram uma surra do pai.
O início do Made in Brazil não foi fácil. Faltavam equipamentos e os garotos tinham que se virar para arranjar instrumentos. Mesmo assim tudo correu bem no primeiro ensaio, em 1967, com a supervisão de Sérgio Dias, guitarrista de Os Mutantes.
Com mais de 30 anos de carreira, o Made in Brazil pretende lançar até no meio do ano seu novo disco, o álbum Sexo, Blues e RocknRoll, que traz participação especial de Sérgio Dias, Charles Gavin, André Christovam, Tony Campello e Roger, entre outros.
Quando começamos, no bairro da Pompéia, onde morávamos, pipocavam muitas bandas. Dali já tinham saído os Mutantes, que faziam sucesso. As quatro grandes bandas brasileiras da década de 70 foram O Terço, que vinha do Rio de Janeiro, e os Mutantes, Rita Lee e Tutti Frutti e Made in Brazil, que vinham da Pompéia, comenta Oswaldo Vecchione, em entrevista feita por telefone à Folha2.
Show de estréia - Depois de arranjarem uma guitarra e um amplificador usados, montar o Made in Brazil não foi difícil: Juntamos o pessoal do colégio, um deles tinha uma bateria, o Cornélius se tornou cantor e o Alberto foi para o baixo.
O primeiro show ocorreu num desfile de modas organizado pelo Cebolinha - o dono da bateria -, num restaurante de comida chinesa no Shopping Iguatemy. Das cinco músicas apresentadas, três eram dos Rolling Stones. Quando começamos já havia passado a primeira geração do rock brasileiro, com Celly Campello, Ronnie Cord e Demétrius. Não havia um público de rock, então tocávamos para a colônia americana e européia em São Paulo. O engraçado é que quando começamos a tocar fora desse circuito, eles nos acompanharam, lembra Oswaldo.
Tocávamos muito rythm & blues, e nos especializamos em bandas inglesas como Animals e Rolling Stones, além de muito blues, como John Lee Hooker, Muddy Waters e Howlin Wolf, comenta. Já em 1973 o grupo começou a trabalhar com músicas próprias, que resultaram no Made in Brazil, o primeiro disco, lançado em 1974. Posteriormente viriam Jack o Estripador, em 1976, Paulicéia Desvairada, em 1978 e Minha Vida é RocknRoll, em 1980.
E veio o som mecânico... - A fase mais difícil foi em 77-78, com o auge das discotecas: Quem contratava bandas passou a comprar equipamento e usar som mecânico. O movimento punk estava surgindo e a música e a letra até revigoraram o rock, mas o pessoal era muito arruaceiro e afugentava o público de bandas que não tocavam punk.
Em consequência, alguns lugares começaram a proibir os shows e as grandes bandas de rock da época não resistiram. Nós reduzimos as apresentações de 120 shows por ano para cerca de 40, e mesmo assim porque tocávamos onde dava. Era muito melhor sair de São Paulo e explorar uma nova região, acrescenta.
O grupo atravessou a década de 80 com Deus Salva, o Rock Alivia...!, de 1985, e Made-Pirata volumes 1 e 2, de 1986 - relançados em um único CD em 1997. Em 90 o grupo voltou às origens com In Blues..., gravado ao vivo.
O álbum enfrentou vários problemas e foi lançado só em 1992, quando havia uma febre de blues nacional com nomes como Blues Etílicos e André Christovam. Quando o disco do Made in Brazil saiu, alguns críticos acusaram o grupo de oportunismo: Na verdade era uma retomada ao início do grupo, mas algumas pessoas não compreenderam. Em 1994 saiu Made in Brazil pela série Acervo Especial, uma coletânea dos quatro primeiros discos.
No estúdioA banda voltou aos estúdios em 1995 para gravar Sexo, Blues & RocknRoll, com 14 músicas - uma regravação e 13 inéditas. O último dia de estúdio contou com um coquetel regado a uísque e vinho enquanto os convidados se dividiam em quatro baterias de gravação.
As participações especiais foram reunidas em um coral para a faixa Rock da Pompéia, uma homenagem ao bairro de origem. Participaram da versão o vocalista Nasi (do Ira!), Roger (Ultraje a Rigor), Pitt Passarel (Viper), Tony Campello, Nenê (Incríveis), Simbas (Casa das Máquinas), Kid Vinil, Sérgio Hinds (O Terço), João Ricardo (Secos & Molhados), Luís Carlini (Tutti Frutti), Cornélius, Percy Weiss, André Christovam e Clemente (Inocentes), entre outros.
Estamos trabalhando as fotos e negociando o lançamento, que deve ocorrer em junho ou julho. Já estamos na estrada com o show dos 30 anos, que faz uma prévia do novo disco e resgata músicas dos discos da década de 70, além de In Blues..., comemora o guitarrista, lembrando que o Made In Brazil deve tocar em Curitiba em maio ou junho no Estação Plaza, e também existem planos para uma apresentação no Moringão, em Londrina, sem data definida.


