A leitura muito além da palavra
Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura discutiu lugares de fala e visibilidade promovidos a partir da literatura
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de abril de 2019
Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura discutiu lugares de fala e visibilidade promovidos a partir da literatura
Marian Trigueiros - Grupo Folha 
Bruno Souza, Ketlin Santos e Jardson Remido são três jovens negros de pouco mais de vinte anos, nascidos e criados em bairros pobres de São Paulo e Fortaleza que integravam as estatísticas – sociais, raciais e econômicas – excludentes do país. O abismo racial e social começou a ser rompido e modificado quando tiveram o primeiro contato com livros e com a literatura, há alguns anos, por meio de projetos socioculturais.

O relato da história e trajetória de superação desses jovens roubou a cena durante o II Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura sob o tema “Leitura e Escrita: Lugares de Fala e Visibilidade”, realizado em março, em São Paulo, pelo Itaú Social e pelo Sesc São Paulo, com curadoria do Instituto Emília e da Comunidade Educativa Cedac e parceria do Unibes Cultural. Além dos jovens inspiradores, o evento reuniu especialistas nacionais e internacionais como Margarita Valencia (Colômbia), Silvia Castrillón (Colômbia) Felipe Munita (Chile/Espanha), María Osorio (Colômbia), Délcio Teobaldo (Brasil), Silvio Luiz de Almeida (Brasil), Ivan Marques (Brasil), entre outros.
Durante os dias de evento, o objetivo central dos convidados foi a troca de experiências sobre leitura e literatura em várias partes do mundo, sobretudo, em comunidades em situação de vulnerabilidade social, abordando o papel das narrativas orais e escritas na construção e desenvolvimento humano. Nesta segunda edição, portanto, o seminário ampliou e aprofundou questões importantes da contemporaneidade, trazendo para o centro do debate os processos de humanização pela arte, as diferentes identidades e os lugares de fala. Dentre os temas tratados, as mesas de debates abordaram temáticas como “Direitos humanos e literatura”, “Escrita e literatura, portas para a construção de identidade”, “O Lugar das comunidades nos espaços de mediação” que acenaram para reflexões, principalmente, sobre machismo, racismo e violência de gênero.
Margarita Valencia, do Instituto Caro y Cuervo, da Colômbia, discorreu sobre o valor quase “sagrado” das palavras e como a leitura e escrita refletem na vida das pessoas. “As palavras podem ter o poder apenas de comunicar se aplicadas somente pelo viés do progresso e da educação. Mas a ideia de literatura atua no campo da criação dos portadores das palavra. Quando juntamos “palavra e leitura”, atuamos na transformação do indivíduo e incentivo a cidadãos críticos. Precisamos pensar nesse domínio como direito”, resume.
Na mesma mesa, o jornalista e educador Délcio Teobaldo, autor do romance “Pivetim”, destacou a importância de dar visibilidade aos autores negros e que luta para desmistificar que só a palavra escrita tem valor. “Minha inspiração está nas histórias orais contadas pelo avô na infância. Essa foi a forma que os povos negros encontraram de passar o conhecimento às gerações de todo conhecimento de seus ancestrais e, hoje, eu coloco no papel.”
LITERATURA QUE TRANSFORMA

Apesar de tímidos no País, não faltam exemplos de projetos com grandes resultados. Um deles é a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, que existe há dez anos na comunidade de Parelheiros (no mesmo terreno de um cemitério), no distrito da zona sul do município de São Paulo, promovendo encontros e atividades voltadas ao tratamento de temáticas que condizem com a realidade social da localidade, como os direitos das mulheres, o enfrentamento contra a violência doméstica e o empreendedorismo social comunitário. “Recentemente, demos início a outras pautas que a própria comunidade demonstrou interesse como alimentação saudável e turismo. Tudo é partilhado: o conhecimento, o afeto, a decisão”, explica Bel Marques, coordenadora do Ibeac (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário), que mantém o projeto pela Rede de Bibliotecas Comunitárias LiteraSampa. Atualmente, a biblioteca realiza os projetos Jovens Escritureiros, Sementeiras de Direitos e Mães Mobilizadoras.
Foi nesta biblioteca que Ketlin Santos teve o primeiro contato real com a literatura, aos 14 anos de idade. Nascida e criada no distrito, hoje, aos 23 anos, desenvolve com outros jovens o projeto Jovens Escritureiros, onde, também, é mediadora de leitura. “Vivi muitos anos acreditando que não tinha potencial para crescer. Aliás, nem sabia que havia essa possibilidade. Mas, ao me deparar com a literatura passei a sonhar com outra realidade e ver que o que está posto pode, sim, ser mudado. Quero dar essa mesma chance para outras crianças e adolescentes de chegarem ao conhecimento da academia. Mas, também, levar o conhecimento da comunidade para lá, porque os professores e escolas precisam aprender a dialogar com os jovens. O objetivo é multiplicar o número de sujeitos ativos e protagonistas de sua história”, diz a estudante de Pedagogia e arte-educadora, que ainda atua em causas feministas.
Da mesma comunidade vem Bruno Souza, que também é estudante de Pedagogia e, além de Parelheiros, atua no Jardim Angela, outro distrito da zona sul de São Paulo. “A literatura desempenha um papel na subjetividade da juventude: é por meio dela que conseguimos expressar nossas emoções ao mundo e nos deslocar para outro lugar. Nós sabemos na pele o que é fome, frio, não ter dinheiro, e a literatura nos possibilita outros caminhos diferentes”, diz ele, aos 21 anos, que teve o primeiro contato com os livros ao ficar de castigo na biblioteca da escola, aos 15 anos. “Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.” Desde então, tem se engajado em projetos como saraus e mediação de leitura para despertar outros jovens ao engajamento juvenil pela "pedagogia do afeto". “Sempre fui muito questionador. Mas o que era visto como rebeldia e desobediência, a partir do contato com a literatura, passou a ser visto como empoderamento e ressignificação da minha existência”, diz, referindo-se à identificação com autores negros.
RAP COMO LITERATURA

Jardson Ferreira de Araújo, de 21 anos, é o nome de batismo do cantor e rapper Jardson Remido, da periferia de Fortaleza, que desenvolve um trabalho artístico literário no qual chama de poesia marginal por meio do rap. “Não lido bem com números, mas entendo bem das proparoxítonas”, brinca, sobre a facilidade de rimas. E é pela música que pretende que outros jovens tenham as vidas transformadas como a sua. “A leitura tradicional não faz parte da nossa realidade. Esse portal, para mim, foi aberto pelo rap, um tipo de literatura que me tirou do tiro da viatura”, conta ele, que, ainda menor de idade, cumpriu medida socioeducativa por tráfico de drogas. Tudo mudou depois da participação no projeto Cuca (Centro Urbano de Cultura e Arte), que acolhe jovens de 15 a 29 anos. “Essa foi a forma que fui atraído pela força da palavra. Por causa dos altos preços dos livros, o dicionário passou a ser meu companheiro; é nele que encontro as palavras para rimar com o código de linguagem da favela para que ela seja enxergada.”
*A repórter viajou a convite do Itaú Social


