Quando originalmente lançado em 1987, ‘‘A Lei do Desejo’’, em relançamento no circuito local, foi o título mais ambicioso e simultaneamente o mais arriscado entre todos os que o espanhol Pedro Almodóvar havia dirigido até então. Consolidado como um dos autores mais celebrados no final do século passado, o diretor de ‘‘Tudo Sobre Minha Mãe’’ jogou todas suas fichas numa trama rocambolesca que mesclava elementos como incesto, transexualidade e crime passional. Mas fez isso de forma muito mais serena do que aquela que transbordava de sua fase anterior, aquela das noites de juventude muito louca na Madri de ‘‘la movida’’.
  E por que, um filme arriscado? Porque, naquele final dos anos 1980, na Espanha ainda se estava digerindo as transformações sociais resultantes de recente transição política e econômica, e o grande público era ainda demasiadamente reacionário quanto a aceitar uma trama de paixão homossexual com a mesma empatia com que recebia as histórias heterossexuais.
  O homossexualismo era ainda tabu para muitos, e por isto ‘‘A Lei do Desejo’’ jogava um jogo perigoso ao narrar uma love story entre homens, renunciando ao banal tratamento humorístico que teria servido como recurso atenuador, mas que teria destruído completamente a complexidade emocional obtida pelo filme para chegar até o emocional das platéias.
  Fiel a seu estilo pós-moderno de imbricar cinema de vanguarda, melodrama clássico, dramaturgia de telenovela, e aliando o cult ao trash, Almodóvar escreveu um argumento autobiográfico – é um de seus melhores roteiros – que era também reflexo de seu processo de criação enquanto artista, nesta sua muito particular versão do ‘‘Oito e Meio’’ de Fellini. Na trama, com todas a letras e em imagens de corajosa explicitude, a problemática de ser homossexual nos anos 1980. Por um lado, uma tomada de atitude ‘‘in’’ para os ambientes modernos da época, mas ao mesmo tempo uma realidade muito dura de aceitar fora dos limites da noite madrilenha.
  O maior atrevimento de ‘‘A Lei do Desejo’’ foi ir muito mais além da mera explicação ou justificativa da condição homo. O filme desenvolve um melodrama de paixões e conflitos semelhantes em grande parte aos que se vê tradicionalmente entre casais hetero. Num clássico triângulo amoroso, a promiscuidade do personagem Pablo (Eusébio Poncela) desencadeará a tragédia ao enfrentar os ciúmes patológicos de Antonio (Antonio Banderas, então ator fetiche de Alomodóvar).
  Antonio, dominado pela figura materna e símbolo da Espanha ditatorial e machista, trata Pablo como qualquer homem trata a noiva, com vigilância e exigências permanentes. Doente de ciúmes e psicótico por não aceitar sua homossexualidade por conta da educação religiosa e repressiva, Antonio chegará ao crime. Supostamente por amor, mas na verdade fruto da insegurança que o levará a se vingar do homem que considera sua propriedade.
  Felizmente, ‘‘A Lei do Desejo’’ obteve o reconhecimento merecido (muito mais fora do que na Espanha), e a partir daquele momento a crítica passou a fixar-se em Almodóvar como um valor a ser tomado muito a sério. O resto, já se conhece bem, é história do cinema.

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