A Lei de Murphy
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terça-feira, 08 de abril de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoEddie Murphy: filme tragicômicoNo sobe-e-desce implacável da bolsa dos atores hollywoodianos, Eddie Murphy talvez seja o exemplo recente mais tragicômico. Em seu filme de estréia, 48 Horas, que o competente Walter Hill dirigiu em 82, a nova promessa saída dos shows do Saturday Night Live surgia com muita personalidade. Dois anos mais tarde, já na gloriosa fase de Um Tira da Pesada, opus 1 e 2, o ator tornava-se a galinha dos ovos de ouro da Paramount na pele do abusado detetive Axel Foley. Fama, fortuna, independência e danação. No final dos anos 80 e início dos 90, alguns fracassos inomináveis chegaram a pôr em dúvida o talento histriônico de Murphy, que havia sido picado pela mosca azul e ilusória do controle total de seus filmes. A gota dágua foi Um Vampiro no Brooklin, descomunal e grosseira tolice sem qualquer resquício de senso de humor. Em lugar da veia humorística, carótidas ensanguentadas. E ranger de dentes. Do público outrora fiel, bem entendido.
Em 1995, na busca desenfreada de uma alternativa de sobrevivência artística e até mesmo financeira, Murphy vasculha o baú de sucessos da Paramount e parte para sua grande virada: a refilmagem de um clássico da comédia americana dos anos 60, O Professor Aloprado, o mais elaborado e mais satisfatório trabalho de Jerry Lewis no cinema. Lançado em meados de 96, em pouco tempo a versão Murphy é um dos hits do verão nos Estados Unidos. Mais ou menos reconciliado com a caixa registradora - mas não com a qualidade - Murphy está agora de volta ao território do thriller policial urbano. Seu novo filme, Metro, lançado nos Estados Unidos dia 17 de janeiro, não é um fracasso mas nem de longe repete o sucesso de The Nutty Professor.
Muita escatologia, pouca iconoclastia Primogênito de uma família de comilões, Sherman Klump é um tímido professor obeso. Aos 35 anos permance virgem. Depois de um desastroso encontro com sua nova assistente, um despeitado Klump decide experimentar uma poção criada por ele. Surge um ser hipersexual, um Don Juan capaz das mais extravagantes e românticas manobras para conquistar a assistente que o rejeitou. Tudo corre bem, até surgirem os efeitos colaterais inquietantes.
O filme se assemelha a uma espécie de farsa paquidérmica, onde Murphy se desdobra em nada menos que sete papéis, outro recurso subtraído de Jerry Lewis. O humor é frequentemente pesado, e via de regra se apóia na providencia fácil do riso sem sutilezas obtido a partir de situações escatológicas. Como a batalha de flatulências à mesa, por exemplo, sequência em que uma tentativa de humor rabelaisiano se perde em nome da obviedade e do mau gosto. E se há, mal disfarçada, a tentativa de se fazer uma auto-crítica
do próprio ator em outros tempos de sua carreira através do personagem-galã Buddy Love, a iconoclastia é somente um quase imperceptível ensaio.


