A lealdade e a traição segundo Amos Oz
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de agosto de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 06 (AE) - Verão de 47, em Jerusalém: poucos meses depois, a ONU criou o Estado de Israel na Palestina, mas naquele momento, bem mais insuportável do que o calor, para árabes e judeus, era a indesejável presença da administração britânica regulando a vida de todos e impondo toque de recolher às 19 horas. "Eram tempos em que fazer amizade com um europeu era considerado uma traição mais grave do que ficar amigo de um árabe: afinal, a Europa havia expulsado e assassinado os seus filhos mais amorosos, os judeus", conta o escritor israelense Amos Oz, que relembra o conturbado período em "Pantera no Porão" (Companhia das Letras, 152 págs., R$ 18,50).
O livro foi escrito em 1995 e só agora chega ao Brasil, coincidindo com o lançamento, em Israel, de "O Mesmo Mar" (título aproximado do original, ainda apenas em hebraico), sua criação mais recente e que ele considera sua obra-prima. "Pantera no Porão" conta a história de Proffi (a narrativa é do próprio protagonista, envelhecido e rememorando a sua infância), um jovem de 12 anos, filho de sobreviventes do holocausto que se mudaram para Jerusalém. O rapaz, como tantos outros, odeia os ingleses e, para horror paterno, forma, com colegas, um grupo clandestino que sonha construir um foguete a ser disparado contra o Palácio de Buckingham. O segredo do menino é que, acima do ódio, para ele há o amor pelas palavras, o que leva, perigosamente, ao encontro do sargente Dunlop, um britânico amante do hebraico de quem ele se aproxima.
Certo e errado - Traição? É o que lhe dizem os amigos. Mas isso é apenas o início de uma trama usada por Oz para pôr em xeque conceitos como certo e errado, amizade e inimizade, lealdade e traição. "Tudo no mundo tem ao menos dois lados", diz o pai do personagem. "Meu livro reflete a tensão interna em que foi criado Israel e que, até hoje, regula a vida dos israelenses", explica o escritor. "Como Proffi, também fui acusado por muitos de traidor de meu povo ao relativizar o ódio contra os palestinos, mas creio que a traição é algo honroso, porque todos os grandes estadistas, de Churchill a Rabin, foram tachados pelos seus de desleais", avalia. "Traidor é aquele que muda aos olhos dos que não conseguem, não querem e não podem admitir mudanças: em meu livro - e na minha vida - as traições deste ponto de vista se sucedem infinitamente", explica Oz.
"O conflito entre Israel e Palestina, em 1948, é trágico porque é uma luta entre o certo e o certo e ambos os povos devem partilhar a responsabilidade pelas mortes e pelo clima constante de insegurança", analisa. Para intensificar essa posição conciliatória, o romancista introduziu, pela primeira vez em seus livros, um terceiro vértice belicoso: o europeu, no caso, o inglês. "É preciso lembrar que o desacordo entre árabes e judeus é algo recente, não é uma luta de classes ou religiosa - embora alguns a queiram assim transformada -, mas uma mera querela imobiliária por terras que ambos acreditam ser de sua posse exclusiva", diz. "Já o conflito entre judeus e europeus é mais intenso, obscuro, datando de milênios: para mim, essa é a desavença histórica efetivamente trágica", avalia Oz. "Quando eu era criança, achava que, em breve, o holocausto iria se repetir em Israel e meus pais, por sua vez, não me ensinavam línguas européias, temendo que eu, como eles, me apaixonasse pela Europa e fosse para lá, onde, acreditavam, eu também seria morto como tantos de nossos parentes o foram", recorda.
"Pantera", porém, ao falar da tensão interna de Israel e com os europeus, igualmente aponta para um futuro conciliatório. "Proffi e o inglês, por exemplo, acabam se entendendo no mundo fechado das palavras e o menino, ao lidar com a dualidade da linguagem - em que uma mesma coisa pode ter significados diversos para duas pessoas -, fica mais cético sobre o ódio incondicional dos amigos e percebe que é possível entender o outro, seja ele amigo ou inimigo", analisa. "Afinal
amar e odiar são conceitos semelhantes: em um caso e noutro, não tiro o alvo desses sentimentos da minha cabeça nem sequer por um minuto."
Dilema é a palavra-chave de "Pantera" e, para Oz, uma metáfora da realidade do Oriente Médio, em que não é fácil determinar quem é o inimigo. "Logo, devemos nos esforçar pelo entendimento, pois o amor é um mineral raro", avisa. "Costumo parafrasear uma palavra de ordem dos anos 60, dizendo que é preciso que árabes e israelenses façam paz e não amor: conflitos entre nações não se resolvem com amor súbito, mas com respeito e justiça", continua. "Não há sentido em se dizer um amante do Terceiro Mundo: só amamos umas poucas pessoas e não haverá paz enquanto os dois povos não entenderem que precisam é se respeitar e não se admirar."
Amos Oz defende um divórcio amigável entre israelenses e palestinos. "A solução é a criação de dois Estados vizinhos, como casas conjugadas separadas por um jardim, em que, como numa separação conjugal inaudita, os dois cônjuges vivam cada uma sua vida, lado a lado", acredita. "Não será o início de uma grande amizade, para lembrar a frase de "Casablanca", nem seremos uma família feliz, mas, com certeza, será o fim possível de uma disputa boba por um pedaço ínfimo de terra de que ninguém quer abrir mão", prevê. Ou quase. "Não sei prever quanto tempo isso demorará, pois não quero ser profeta numa terra de profetas: já há muita concorrência, não é?", brinca.
Humor provocativo - O escritor, aliás, é pródigo em definições bem-humoradas de seus conterrâneos. "Israel é um país intenso, de desavenças internas eternas, uma sociedade que grita o tempo todo - embora não seja violenta -, xingam-se uns aos outros, discordam de tudo e até de si mesmos, porque somos um povo de alma e mente divididas", fala. "É difícil achar um israelense que concorde com algo ou alguém e qualquer coisa pode levantar uma grita geral, com todos discutindo sobre moral, religião ou o significado real de Deus: todos, portadores de um gene anárquico, falam e ninguém ouve", conta. "Eu mesmo, no melhor estilo hebraico, discordo de um conterrâneo meu, Jesus Cristo, ao renegar a idéia do amor universal: Israel não é um filme de Bergman, mas de Fellini", diz, provocativo.
"Por isso, esse país nunca terá um papa; se isso ocorresse, com certeza, alguém, dando tapinhas nas costas do pontífice, diria: Olha, você não me conhece, mas meu tio fez negócios com seu avô em Minsk e eu queria ensinar a você o verdadeiro sentido de Deus, e assim por diante." O tema está presente em "Pantera", assim como outro, tão próximo: a culpa. "A culpa é uma invenção judaica em Jerusalém que depois foi levada para o resto do mundo pelos cristãos: confesso que me sinto culpado pela criação da culpa", revela, rindo. "Nós, judeus e católicos, se não nos sentimos culpados pela manhã, morremos de culpa à noite, por não termos pulado essa culpa matutina: em Israel vivemos para ser crucificados ou crucificar os outros."
Prosa e poesia - Mas, no novo livro, O Mesmo Mar, Oz quer tratar o assunto de forma mais lírica. "É um romance mais enxuto, em que mesclo prosa e poesia, pois estava cansado da gordura que envolve a novela convencional e me impedia de chegar a uma concentração e concisão quase destiladas", revela. Nessa obra, o escritor quis descrever um processo de paz em que o conflito não é resolvido por um confronto violento, mas por meio de uma comunhão mística. "Mas não é um panfleto sobre o Oriente Médio, antes uma análise da condição humana; o título, de tom bíbilico, traz a idéia do mar dividido por árabes e israelenses, mostrando que viemos do mesmo lugar e retornaremos a ele, juntos
do mesmo modo."


