Curitiba - O movimento na pequena cidade da Lapa, a 71 quilômetros a oeste de Curitiba, não lembra em nada o das grandes metrópoles. O pacato município ostenta pequenas construções antigas, datadas do distante século 19 e que conferem um cenário interiorano e remoto ao local. O ambiente foi escolhido pelo cineasta Sérgio Bianchi para filmar o seu mais recente longa: ''Quanto vale ou é por quilo?''. O filme é inspirado no conto de Machado de Assis ''Pai contra mãe'' escrito pouco tempo depois da abolição da escravatura.
As filmagens no município paranaense começaram no último dia 30. O cronograma ainda prevê tomadas em Paranaguá e Morretes, no litoral do Estado, até o próximo dia 15 de outubro. Depois disso, o cineasta vai escolher uma metrópole entre Curitiba e São Paulo para terminar o projeto. As filmagens em território paranaense fazem parte de um ''acordo'' com a Secretaria de Estado da Cultura, que está arcando com 20% do orçamento do filme mediante o compromisso do cineasta utilizar elenco e cenário estaduais.
O filme tem investimento de R$ 2,9 milhões. Apenas 30% do longa estão sendo rodados no Estado e o restante ainda espera definição de local e elenco. A previsão de lançamento é para o segundo semestre de 2003. Antes disso, o cineasta paranaense radicado em São Paulo, afirma que não está tendo muito tempo para pensar em novos projetos. ''Por enquanto só consigo tomar banho e escovar os dentes e às vezes dormir'', brinca. Ele se mudou para a pequena cidade da Lapa, onde acompanha com destreza todos os passos dados pela produção, orientando cada movimento das cenas.
O mesmo cuidado pode ser visto nos seus filmes anteriores. O mais recente ''Cronicamente Inviável'' (2000) arrancou espasmos bem-aventurados da crítica norte-americana. O filme foi visto numa retrospectiva em homenagem ao cineasta, em Nova York no início deste ano. O evento exibiu quase todos os seus filmes, exceto o primeiro, que não foi legendado em inglês a tempo. Em dezembro, retrospectiva semelhante acontece em Portugal.
Até lá o cineasta deve estar ainda envolvido com ''Quanto vale ou é por quilo?''. O filme traça um paralelo entre a vida no período da escravidão e a sociedade brasileira contemporânea. Em entrevista à Folha, o cineasta explica como o tema será transportado para a tela
O filme ''Quanto vale ou é por quilo ?'' é baseado no conto de Machado de Assis, que narra a história de um ''caçador de escravos'', mas também foi inspirado em algumas crônicas datadas e alguns temas contemporâneos. Como o roteiro se constrói?
Tem várias coisas. Primeiro eu li o conto e me deu vontade de fazer. Então eu descobri umas crônicas feitas pelo carioca Nereu Cavalcanti, extraídas de documentos de cartório da época. Os textos abordam as brigas econômicas, mercantis, judiciais no final da escravatura. Depois eu comecei a achar interessante toda a movimentação do terceiro setor e o ''bum'' de todas as facções políticas brasileiras preocupadas com a questão social. Surgiram muitas ongs e grupos de voluntariado. Isso é a indústria do terceiro setor. Aí eu juntei tudo isso. Sei lá o que vai dar...
Os seus trabalhos são reconhecidos como obras radicais, políticas. Como esse filme se encaixa nesse contexto?
É tudo igual. Sabe como é o outro nome desse filme? ''Batendo na mesma tecla.'' A gente sempre faz o mesmo filme. A gente sempre fica com a mesma coisa. Eu não acho radical coisa nenhuma. Acho um saco isso, aliás. Acho que as pessoas são tão colonizadas. Não as pessoas, mas a cultura brasileira. A colonização está tão enraizada e as pessoas estão tão acostumadas a falar sobre a realidade dos outros países que se você fala alguma coisa que reflita o óbvio você já se torna radical.
Você não gosta de ''aparecer'' e nem que confundam a sua pessoa pública com o seu trabalho. Mas as duas coisas não se misturam? Isso não acaba influenciando a escolha que você faz dos temas abordados nos seus filmes?
Eu não sei. É um reflexo meu porque sou eu que faço. Agora, eu não estou preocupado em tentar fazer, como alguns colegas meus, um cinema americano e totalmente paranóico. É uma obsessão pelo terror, por explosão. Obsessão pela baixaria, obsessão pelo desvio psiquiátrico. Isso é uma patologia da cultura deles. Eu tento colocar nos meus filmes as coisas que eu vejo. Que são do meu País. Eu sou daqui. O americano faz o filme assim também. Fala da sua realidade. Só que para a gente não parece crítico porque não fala da nossa realidade.
E qual é a realidade que você está abordando agora?
É essa coisa de negociação, da grana, do mercado. Do uso do ser humano no mercado. Não só agora como na época da escravatura.
O filme tem vários personagens negros. Você sentiu alguma dificuldade em encontrar elenco aqui no Paraná?
O filme todo tem 70% de atores afro-brasileiros. Existe dificuldade em encontrar bons atores com essa característica no Brasil inteiro. Eu estou há quatro meses procurando e ainda faltam algumas lacunas. Mas eu descobri pessoas ótimas aqui. Tem a Odelair Rodrigues e tem uma outra moça nova de Curitiba que é a Paula Dias que são maravilhosas.
Na sua opinião, qual o problema do cinema brasileiro atualmente?
Tirando posturas ideológicas e partindo para uma realidade objetiva o problema do cinema brasileiro é o seguinte: é uma invasão do império americano de 90% a 95% dos casos. Cada cultura tem uma forma de se expressar, mas algumas pessoas insistem em copiar a cultura americana tentando com isso, abrir o mercado. E é uma bobagem porque não abre de jeito nenhum. Acho que isso é errado. O povo que não tem a sua cultura como reflexo de si mesmo é um povo alienado, que fica esclerosado mentalmente. Mas eu sinto que está mudando. Agora não é mais como há cinco anos. As pessoas já estão tentando falar de si mesmas no cinema.

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