Israel parece ser um local predestinado à discórdia. Os conflitos entre israelenses e palestinos foram banalizados pelas emissoras de tevê, que se limitam a mostrar corpos dilacerados, ambulâncias de som estridente rasgando as ruas e o lamento das vítimas no momento de um atentado surpresa. De fato, pouco se conhece sobre a forma de sobrevivência dos quase sete milhões de residentes naquele território de incompatibilidades religiosas.
O cineasta norte-americano Jason Gurvitz, 26 anos, vislumbrou uma fenda nesse interminável conflito e decidiu realizar um documentário mostrando como vivem e o que pensam jovens entre 10 a 28 anos. Com um detalhe, ele irá abordar a vida de jovens israelenses e palestinos, buscando a imparcialidade na abordagem.
Uma tarefa arriscada, pouco explorada e com uma dupla barreira a ser enfrentada por Jason Gurvitz: ele é judeu. O documentário batizado de ''Internal Exile'' (Exílo Interno) pretende dar visibilidade e voz a um variedade de jovens que criaram códigos próprios de sobrevivência. Visitando pela terceira o Brasil, Jason Gurvitz passou por Londrina e conversou com a Folha2 sobre seu projeto que deve rodar o mundo depois de finalizado.
Jason pisou em terras israelenses pela primeira vez no final do mês de abril, numa viagem patrocinada pelo Ministério do Turismo de Israel. Nas três semanas em que permaneceu em Tel-Aviv e Jerusalém fez imagens preliminares do filme em câmera digital profissional. O documentário terá 90 minutos. A equipe chegou a filmar simultaneamente nas duas cidades no momento de um ataque. Jason se desdobra nas conversações com organizações de palestinos e judeus para obter os recursos 180 mil dólares a tempo de embarcar para Israel em fevereiro de 2002, com uma equipe diminuta de oito pessoas.
O cineasta reside em Los Angeles considerada a meca dos judeus e nem por isso as portas e cofres são abertos para um filme que pretende mostrar as marcas internas de quem está no centro das divergências entre minorias. Jason realizou dois curtas-metragem antes de se aventurar na trilha do longa. Ele coleciona artigos relativos à guerra pinçados dos jornais The New York Times e Los Angeles Times. Seu interesse pelo conflito israelense ultrapassa as questões religiosas, políticas ou jornalísticas.
''Vou mostrar como os jovens israelenses e palestinos adaptam suas vidas ao terrorismo. Há muitas crianças que não conseguem imaginar suas vidas sem caminhões de guerra'', afirma, em bom português. Regra número um no manual de sobrevivência dos jovens israelenses: não viver a guerra.
Um jornal em Israel publicou um guia de escapismo composto de 50 itens. Num dos itens constava o exílio interno, que sugeria ao leitor minar do dia-a-dia notícias veiculadas em jornais, rádios e tevê. A intenção seria a de banir do cotidiano toda a educação para a guerra. Daí surgiu o título do filme: ''Exílio Interno''. Como compensação, recomendava-se o refúgio na música, praia e cinema, certamente como forma de autopreservação.
Num país de contrastes, com a economia mais desenvolvida do Oriente Médio, Jason Gurvitz constatou que quanto mais acirrado se torna o conflito, mais se busca um refúgio na música, cinema e diversão. Quanto mais violência, maior a pulsão rítmica da música tecno. Apesar de a destruição ser externa, e não ter como fugir, é internamente que eles buscam um oásis. Há um pensamento que ecoa uníssono entre os personagens: se o terrorismo existe, vamos nos divertir mais. ''Mas há lugares em Israel que não há guerra. Cada dia querem saber menos da guerra. A guerra está entre judeus e palestinos extremos. A maioria da população está no meio e quer paz'', salienta.

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