Se existe um padrão inevitável no universo literário é aquele que mostra que todo escritor consagrado, um dia, ou uma noite, foi um jovem e iniciante escritor. Antes de criar grandes obras, escreveu textos iniciais, experimentos imaturos e exercícios de aprendizado.
Esses textos, invariavelmente recusados por seus autores, com o tempo passa a despertar grande curiosidade. Lê-los seria uma forma de compreender o processo de desenvolvimento de uma literatura, do amadurecimento de uma escritura.
Gustave Flaubert (1821 - 1880), por exemplo, escreveu na juventude alguns livros antes de se jogar de cabeça no clássico ‘‘Madame Bovary’’ que o consagrou. Os escritos, que jamais fez questão de publicar – entre eles ‘‘Memórias de um Louco’’ (1838), ‘‘Novembro’’ (1842), ‘‘Educação Sentimental e Primeira Fase’’ (1945) –, foram lançados somente depois de sua morte. Praticamente desconhecidos por grande parte dos leitores, as obras serviram de base para várias teses sobre a formação da literatura do escritor francês.
A novela ‘‘Novembro’’, escrita por Flaubert quando tinha 20 anos de idade, acaba de receber sua primeira edição brasileira lançada pela Editora Iluminuras. Narrada em primeira pessoa, algo raro na produção do escritor, reproduz os conflitos internos de um adolescente dilacerado, dividido entre o corpo e a alma, no processo do desenvolvimento do amor. Ávido por amar, dando cabeçadas na impossibilidade de viver a plenitude de tal sentimento, atravessa os dias ‘‘como as almas que o inferno não deseja e o paraíso rejeita’’.
Pautado por um ideal romântico, o herói da obra procura o amor em cada olhar feminino, em cada fiapo de palavras, em cada gesto normalmente insignificante. Procurando se desfazer de sua virgindade, entrega-se a todo e qualquer gesto grávido de emoções. Entrega-se a longas caminhadas pelos campos apreciando a harmonia entre o cosmos e a natureza. Nessas experiências, vive inimagináveis êxtases panteístas que se abrem como canais divinos para o êxtase do amor.
Realiza uma longa e torturante caminhada praticamente em vão. Sua alma não encontra correspondência com outras almas. Seu corpo não encontra o calor de um corpo feminino. Ironicamente, carregando um cansado próximo da loucura, experimenta o amor pelas mãos de uma prostituta. Justamente uma mulher infeliz, alagada por uma melancólica e desesperançada postura em relação à vida.
‘‘Novembro’’, numa bela edição organizada por Sérgio Medeiros, traz algumas surpresas. O texto de Gustave Flaubert, além de aquarelas de EugSne Delacroix, vem acompanhado das cartas que escreveu durante sua aventura pelo oriente, numa viagem realizada entre os anos de 1849 e 1951 na companhia do amigo Maxime Du Camp.
Alguns leitores podem até considerar essas cartas mais interessantes que o própria novela ‘‘Novembro’’. O motivo é claro: revelam um Gustave Flaubert totalmente ‘‘desencanado’’, expondo-se de uma maneira relaxada, vivenciando, de corpo e alma abertos um território sedutor. Intercalando um certo lirismo com palavrões, suas palavras transitam entre as belezas e os horrores de uma cultura exótica. Não são palavras de um mero turista. Um Gustave muito diferente daquele encontrado em seus romance de maturidade.
Viajando de camelo e barco, Flaubert percorreu regiões do Egito, Síria, Palestina, Líbano, Grécia, Istambul e Itália. A aventura foi financiada pela sua mãe, na esperança de que a façanha o curasse das constantes crises nervosas que o atormentavam. Para facilitar o trânsito em território estrangeiro, a dupla conseguiu um registro oficial do governo francês o que facilitou a receptividade nos países visitados. Maxime ficou encarregado de fotografar a paisagem; Gustave de fazer um levantamento dos portos da região.
Na verdade esse aval oficial teve um significado maior: os aventureiros tiveram acesso, bem como a facilidades, aos melhores prostíbulos das cidades por que passavam. Sexo, aliás, é um tema recorrente em todas as cartas. Flaubert descreve suas experiências sexuais com mulheres exóticas. E, uma novidade, fala sobre suas relações sexuais com homens, profissionais das casas de banho, sem grandes pudores.
Ao final da festa, Flaubert e Maxine, depois de várias doenças venéreas, tiveram que se submeter a um rigoroso tratamento médico. No caso de Flaubert, os fortes remédios ingeridos teriam sido responsáveis por uma irreversível queda de cabelo. Além da calvície, sua característica obesidade também teve origem no decorrer da viagem.
Pode-se dizer que a imagem de gordo, calvo e sério autor de importantes obras da literatura universal – como ‘‘Madame Bovary’’, ‘‘Salambô’’, ‘‘Educação Sentimental’’ e ‘‘Bouvard e Pécuchet’’ –, teve numa irreverente aventura juvenil sua origem.
•‘Novembro’’ de Gustave Flaubert, Editora Iluminuras, tradução, introdução e notas de Sérgio Medeiros. Aquarelas e desenhos de EugSne Delacroix, 224 páginas. Preço R$ 28,00.

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