A janela e uma vida inteira
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
São cada vez mais raros filmes como este ''A Janela'', em que a imagem quase muda narra uma história minimalista, envolvendo emocional e intelectualmente o espectador. Produção argentino-espanhola escrita e dirigida por Carlos Sorín (''Histórias Mínimas'', ''O Cachorro''), ''La Ventana'' honrosamente é parte desta galeria muito seleta de momentos extraordinários da poética cinematográfica, cada vez menos visitada por talentos (em extinção) capazes de trabalhar a essência da humanidade. O filme está em lançamento a partir de hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2).
A trama de ''A Janela'' é tão evanescente que se poderia dizer que ela quase dissolve no ar quando resumida. Don Antonio (Antonio Larreta, escritor uruguaio e dublê de ator) vive numa casa de campo no norte da Patagonia, sul da Argentina, sob os cuidados de duas fiéis empregadas. Ele está muito doente e aguarda a chegada do filho, pianista consagrado que corre o mundo com a agenda tomada por concertos. Pai e filho estão distanciados há tempos.
Em que pese seu isolamento, pela casa de Antonio desfilam diversos personagens, como o médico e o afinador de pianos especialmente contratado para a ocasião. A chegada do filho (Jorge Diez), em companhia de sua nova mulher (Carla Peterson), marca o momento culminante de um argumento que se pode classificar como ''minimalista'', parafraseando o próprio diretor.
Na verdade, pouco acontece nos 84 minutos que duram a narrativa e que resumem as últimas doze horas de uma vida. Muito do que se vê é apenas sugerido por Sorín, que deixa que o espectador elabore em cima daquilo que está vendo. Imagens e sons e cores podem então alcançar dimensão existencial épica, a depender de corações e mentes mais ou menos aguçados.
Olhares clínicos vão reconhecer na obra influências várias, entre as quais a de Anton Tchekov, um dos escritores preferidos do diretor. Há outras, explícitas, como o conto ''Três Rosas Amarelas'', de Raymond Carver. Outras referências são ''Mãe e Filho'', de Alexander Sokurov, e ''Morangos Silvestres'': a proximidade da morte, como para o professor de Bergman, predispõe Don Antonio ao resgate do passado.
Um parágrafo à parte para duas cenas idênticas, princípio e fim de ''A Janela'', que tentam refletir um sonho do velho doente. Com mão de mestre, Sorín apela para uma narrativa silenciosa, trabalhada em sépia, que aparece como uma metáfora plenamente satisfatória. As figuras que ali aparecem, especialmente a mãe, estão propositalmente difusas. O propósito evidente da cena é que o próprio espectador percorra a mente deste homem, angustiado pelo passado e pela presença da morte.


