Gainni Amélio é cineasta veterano, respeitado na comunidade festivaleira, e um filme dele é sempre aguardado com grande expectativa. Volta e meio entra na competição, em Veneza, Cannes ou Berlim. Em 1998 levou o Leão de Ouro com ''Cosi Ridevano''. Há um ano esteve aqui de volta com o excelente ''As Chaves de Casa'', já programado para lançamento em Londrina em outubro, na sala Com-Tour/UEL. Ontem seu título mais recente passou na competição: ''La Stella Che Non C'è'', trabalho não inteiramente satisfatório.
Um operário italiano especializado, e agora com pouco a fazer por causa dos novos tempos, faz uma viagem a China para tentar substituir uma peça do forno industrial que os chineses compraram e que ele descobriu defeituosa. Esta a súmula, na origem intrigante e promissora. Mas a jornada de Vincenzo Buonavolontà - um tanto óbvio, o nome dado ao personagem vivido com a habitual presteza por Sergio Castellitto - China adentro é uma on the road que não elucida muito sobre o que Amélio pretende. Realista a princípio, envereda pelo escorregadio terreno do metafísico.
Uma viagem existencial à maneira de Antonioni? Não chega perto. Uma homenagem àquele velho operariado comprometido com a honestidade, com princípios, de resto em franca extinção? Uma tentativa de se aproximar do fenômeno chinês em toda sua complexidade econômica e principalmente humana? Amélio embaralha um pouco as coisas. Há um personagem feminino, a intérprete de Vincenzo, frustrada tentativa de estabelecer as contradições entre Oriente e Ocidente. Razão e emoção, enunciado que Amélio sempre resolve satisfatoriamente, aqui não encontra sua melhor resolução. Mas não é filme a se desprezar.
Por falar em desprezo, dois títulos distribuídos por majors americanas como Universal e Fox aportaram indevidamente na competição oficial, dois ovnis que estarão em breve nas vitrines dos multiplex da vida, e que jamais deveriam estar na linha de frente. Mas então o que fazem na mostra competitiva, filmes como ''Children of Men'' e ''The Fountain'', a não ser como evidencia de (1) lamentável equívoco ou (2) pressões inconfessáveis? Qualquer das duas alternativas remete - e compromete - à curadoria do Festival de Veneza.
Por coincidência, ambos os filmes são fantasias que se pretendem premonitórias. E sérias. Mas acabam apenas ensaios quando muito risíveis. Ficções eles são, científica, política e social. ''The Children of Men'', dirigido por um irreconhecível Alfonso Cuarón (''Y Tu Mamá También''), coloca a humanidade num beco sem saída em 2027. Contrariando as previsões demográficas, o mundo está cada vez menos habitado, o mais jovem habitante nasceu há 19 anos, e acaba de ser assassinado.
Mas surge uma grávida que precisa ser salva para dar à luz. E o filme se resume a uma frenética perseguição numa Inglaterra devastada e regida pelo totalitarismo. Perda de dinheiro, tempo e talento - Julianne Moore, Clive Owen e Michael Caine como um velho hippie fazem o melhor possível nas circunstâncias extremamente adversas.
A outra bobagem é puro new age, ou filme de elevador. Em ''The Fountain'', há uma inflação de imagens que parecem saídas diretamente daquelas capas meio esotéricas de antigos álbuns de vinil de grupos como Yes e Allan Parsons. O filme, assinado por Darren Aronovsky, também irreconhecível depois de ''Réquiem por Um Sonho'', tem roteiro que é pura viagem sem rumo. A idéia de contar uma história de amor que atravessa e desafia os tempos, entre passado, presente e futuro, até que tinha lá seu fascínio.
O problema é a salada mística em torno da inevitabilidade da morte, o molho que desanda, a mescla que coloca num mesmo caldeirão os ingredientes da fonte da imortalidade (no século 16), a cura do câncer (tempo presente) e a árvore da vida (século 26). Hugh Jackman é o conquistador espanhol do passado, o cientista do presente e o astronauta do futuro. Rachel Weiss (de volta a Veneza depois do sucesso aqui mesmo em 2005 com ''O Jardineiro Fiel'') é a rainha Isabel na Espanha e a mulher com câncer terminal.
Claro que há nicho específico para filmes como estes. Mas com toda a certeza, mostras competitivas de festivais de cinema como o de Veneza não são este nicho. Quando muito acomodados, por razões estratégicas, na seção ''fora de concurso''. (C.E.L.J.)

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