A irreverência do grupo Os Fodidos Privilegiados está de volta ao Festival Internacional de Londrina no evento Filo 2000 – Ano 0 – De Todas as Artes. O espetáculo da trupe carioca é ‘‘Tudo no Timing’’, de autoria do norte-americano David Ives. Pela primeira vez montado no Brasil, o texto reúne seis peças curtas, encenadas por oito atores e um pianista, Marco Abujamra. As duas apresentações acontecem hoje e amanhã, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde.
A direção é assinada pelo norte-americano Terry O’Reilly, integrante da companhia nova-iorquina Mabou Mibes, e o paulista João Fonseca, do grupo carioca. A parceria surgiu do interesse de O’Reilly pelo trabalho dos brasileiros. A partir da proposta do norte-americano, os Privilegiados trabalharam a adaptação (assinada por Ana Bernstein) do texto, centrando a montagem no trabalho de ator. A estréia aconteceu em julho de 1999, no Rio de Janeiro.
Um dos diretores, João Fonseca, observa que o estilo de David Ives é escrever peças curtas, em um ato. ‘‘Em ‘Tudo no Timing’, as peças variam de seis a 20 minutos cada. Todas são comédias, nas quais o humor parte de brincadeiras. Ives também é mestre em fazer jogo de palavras e o texto depende muito do timing, do tempo em que tudo é feito’’, explica.
Segundo o grupo, ‘‘Tudo no Timing’’ aborda a falta de comunicação entre as pessoas, questiona o modo de agir do homem moderno ou simplesmente brinca com a linguagem teatral, com a música e até com a história. A ligação entre as seis peças é marcada pelo estilo do autor, já que os temas são bem diferentes e inusitados.
Em ‘‘Phillip Glass compra Pão na Padaria e Coro dos Ferreiros’’, os atores encenam um pequeno musical que tem como protagonista o músico norte-americano. Uma campainha – presente em outras partes do espetáculo – pontua constantes mudanças de clima durante a cena.
A segunda peça, ‘‘Tudo Bem’’, é encenada por dois atores que interpretam um rapaz e uma moça conversando em uma mesa de bar. ‘‘Cada vez que toca a campainha, os dois voltam ao início da cena, mas na pele de personagens diferentes’’, conta.
Em ‘‘Macacos ou Palavras, Palavras, Palavras’’, um cientista coloca três macacos presos junto a máquinas de escrever. É aí que o trio tenta recriar o texto ‘‘Hamlet’’, de Shakespeare. ‘‘Ao invés de usarmos nomes de escritores para os macacos, como no original, adaptamos para a cena política brasileira. Eles passaram a se chamar ACM, Lula e Benedita’’, detalha Fonseca.
‘‘Linguagem Universal ou Unamunda’’ traz um professor que cria uma língua universal (Unamunda) e recebe uma única aluna para as aulas, que por sinal é gaga. ‘‘A platéia passa pela mesma experiência da aluna, que no início não entende nada’’, antecipa.
Outra adaptação para o cenário brasileiro poderá ser vista em ‘‘Brasília ou Capital Federal’’. ‘‘O texto fala de Philadelphia, nos Estados Unidos, mas tentamos puxar para a nossa realidade’’, argumenta o diretor. Basicamente, a peça relata o encontro de dois amigos que vivem ‘‘astrais’’ opostos num mesmo dia. A última peça do espetáculo é ‘‘Variações Sobre a Morte de Trotsky’’, baseada no assassinato do líder da Revolução Russa, com um golpe de picareta na cabeça.
Grupo fundado em 1991, Os Fodidos Privilegiados tem hoje cerca de 50 integrantes. Enquanto parte da companhia está em Londrina, outra prepara no Rio a nova montagem, ‘‘Louca Turbulência’’, com estréia prevista para junho.
‘‘Tudo no Timing’’ rendeu ao grupo três indicações ao Prêmio Shell no ano passado: melhor atriz, melhor direção e melhor música. O grupo carioca já esteve em Londrina no Filo 98, com o espetáculo ‘‘O Casamento’’.
‘‘Tudo no Timing’’, espetáculo com o grupo carioca Os Fodidos Privilegiados. Hoje e amanhã, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. Ingressos a R$ 10. Texto: David Ives. Direção: Terry O‘Reilly e João Fonseca. Direção Musical: Marco Abujamra. Elenco: Denise Sant’Anna, Filomena Mancuzo, João Fonseca, Nello Marrese, Paula Sandroni, Ricardo Souzedo, Rose Abdallah, Thelmo Fernandes. Cenário: Nello Marrese. Figurino: Filomena Mancuzo. Iluminação: Maneco Quinderé e Alan Castelo. Coreografia: Antonio Abujamra.

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