É muito pouco provável que Deus tenha, em algum momento, praticado a gula. Impossível que tenha sentido inveja do que quer que seja. Muito menos que tenha se envolvido em algum tipo de luxúria. Preguiça certamente nunca passou pela sua cabeça, já que construiu o mundo em apenas seis dias. A avareza nunca fez parte de suas obras. Também não há indícios que tenha tido algum ataque de soberba. Mas, tratando-se da ira, talvez por ironia do destino, as coisas são diferentes.
Entre os sete pecados capitais, o único que Deus demonstrou ter sentido - e praticado - foi a ira. Em acessos de cólera, expulsou o homem do paraíso, provocou o dilúvio, jogou pragas, colocou fogo em Sodoma, derrubou a Torre de Babel...
Esta fúria divina não é um componente encontrado exclusivamente na mitologia bíblica. Em grandes parte das mitologias e religiões, os deuses em vários momentos foram acometidos por ataques explosivos de ira. Trata-se da famosa e lendária ‘‘cólera dos deuses’’.
Se até mesmo os deuses são passíveis de surtos de ira, no universo dos homens a fúria torna-se mais acentuada e, em alguns casos, quase cotidiana. Da simples raiva de um motorista num trânsito complicado, até a cólera sangrenta que tempera as guerras.
O segundo volume da série Plenos Pecados, série criada pela Editora Objetiva abordando literariamente cada um dos sete pecados capitais, acaba de chegar às livrarias abordando a ira. Mais especificamente a ira como um dos ingredientes das guerras. Em ‘‘Xadrez, Truco e Outras Guerras’’, o escritor paulista José Roberto Torero, mistura história e ficção com doses de humor, ironia e, principalmente sarcasmo, para mostrar que a ira é o único dos pecados que pode ser uma virtude.
Inspirado na Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1865 e 1870, o romance possui como protagonista um soldado, um homem comum. Rodeado por sargento, tenente, capitão, coronel, general e outro humildes e perdidos soldados como ele, o personagem vai percorrendo os caminhos da guerra sem nenhum objetivo. Até que se apaixona por a mulher de um comerciante que acompanha a tropa vendendo papel e escrevendo cartas para os integrantes do batalhão. A guerra, então, torna-se apenas uma desculpa para permanecer próximo do objeto de sua paixão.
Em ‘‘Xadrez, Truco e Outras Guerras’’, José Roberto Torero trabalha com o tema ira com desembaraço. Não fica preso, amarrado ao tema, utiliza-o como um dos vários elementos do romance. Diferente do que Zuenir Ventura realizou no primeiro volume da série, ‘‘O Mal Secreto’’, onde abordou a inveja. Demasiadamente preso ao tema, Zuenir Ventura precisou fazer uma reportagem em que ele próprio era o personagem principal percorrendo os corredores da inveja.
José Roberto Torero integra o coro de jovens escritores brasileiros em ascensão. Nascido na cidade de Santos em 1963, seu primeiro livro ‘‘O Chalaça’’ (Companhia das Letras, 1995) recebeu o Prêmio Jaboti 1995 e chegou às listas dos mais vendidos. Entre seu trabalho como roteirista de cinema, destaca-se ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’ e ‘‘A Felicidade ɒ’.
Na realidade o tema central de ‘‘Xadrez, Truco e Outras Guerras’’ não é exatamente a ira, mas o leque de sentimentos que compõem as batalhas e, principalmente, a falácia do heroísmo. A ira seria apenas um dos combustíveis para colocar em funcionamento o motor da guerra. O soldado, o ponto mais fraco da corda, precisa ter ódio do inimigo para poder matá-lo com mais determinação, sem remorsos.
Apesar de todas as atrocidades que provoca, uma guerra nada mais é do que um grande negócio, uma fonte de renda. Enquanto alguns ganham muito dinheiro, outros apenas perdem a vida. Depois de sair vitorioso da batalha, o rei é aclamado e amado pelo povo, uma guerra onde todos ganharam, ‘‘os que voltaram são heróis, os que não foram sentem-se vitoriosos e os mortos não podem reclamar’’. Diante de tal sucesso da guerra como grande negócio, o rei pretende iniciar uma outra guerra, contra outro país vizinho, pequeno e fraco. Diante do questionamento de que seja covardia lutar contra os mais fracos em busca de grandes negócios, responde: ‘‘A ira só é sábia se possui um grão de covardia. Se não, é pecado.’’
Assim como a política é sarcástica, a economia é sarcástica e a história também é sarcástica, a guerra, que abarca as três, é sarcástica ao cubo.
Nota: Platão deixou registrado em seus escritos que, quando Sócrates se irava, falava menos e com mais doçura: ‘‘Via-se claramente que estava enfurecido, mas via-se, ao mesmo tempo, que tratava de dominar a sua paixão.’’
• Xadrez, Truco e Outras Guerras - de José Roberto Torero, Editora Objetiva, 110 páginas, R$ 19,00/Livraria Rosa do Povo (fone 043/321-5691).

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