A invenção dos passarinhos
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de agosto de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha 2 
ReproduçãoSó o pinguim ficou
com medo de tirar
os pés do chãoHouve um tempo em que os pássaros não sabiam voar. Apesar de asas e penas, ficavam com os dois pés no chão como os cães, homens e ovelhas. Não tinham muito o que fazer e ficavam perambulando de um lado para outro procurando algum entretenimento.
É nesta época que acontece a lúdica e divertida história infantil Voa, Passarinho!, escrita por John Yeoman e ilustrada por Quentin Blake, lançada pela Editora Companhia das Letrinhas. Trata-se do tipo de narrativa fabular que inverte a ordem natural das coisas para depois recolocá-las em seus devidos lugares.
Nesta época uma família - os Pena - enfrentava vários problemas com a grande população de papagaios, canários, garças, bem-te-vis, galinhas, corujas, urubus, pombas, patos, pica-paus e muitas outras aves. Ao anoitecer, as portas e janelas tinham que ser fechadas para evitar que os pássaros folgados dormissem dentro de casa. Mas o grande problema estava em andar de bicicleta.
Caio e Elisa, as crianças da família, utilizavam diariamente bicicleta para irem para a escola. Precisavam fazer grande parte do percurso carregando-as nas costas para evitar que as aves furassem os pneus com bicadas. Sem falar no risco de atropelar um tico-tico, ou um beija-flor.
Cansado das reclamações das crianças, o pai de Caio e Elisa resolve inventar uma bicicleta voadora para resolver o problema. Os pássaros ficariam com chão, e as pessoas, com o céu. Assim o problema estaria resolvido.
O invento, depois de vários ajustes criativos, ganhou os céus. Mas um pequeno pardal, curioso por natureza, pegou carona na máquina voadora e, suspenso no ar bateu as asas excitado. Os outros pássaros, admirando a façanha do companheiro, se lançaram pelos ares voando como nunca tinham ousado antes. Assim aprenderam que podiam voar.
Depois deste dia, os pássaros trocaram o chão pelo ar. O invento foi logo esquecido pois o céu ficou intransitável, congestionado de aves de todos os lados. As crianças passaram, então, a andar tranquilamente de bicicleta pelas ruas da cidade.
De todas as aves, tudo indica que apenas o pinguim ficou com medo de tirar os pés do chão e permanece até hoje sem bater as asas. Moral da história? Talvez algo como deus dá asas a quem aprende a voar.
Voa, Passarinho!, de John Yeoman e Quentin Blake, Editora Companhia das Letrinhas, tradução de Eduardo Brandão, 32 páginas, R$ 17,00.


