Que a arte tem a ver com pensamento e não só com riscos, rabiscos e borrões todo mundo sabe. Que ela é parte de um processo cultural elaborado, ninguém nega. Mas, é possível criar uma arte que seja pensamento que se faz? Não como enunciado filosófico (ou que seja), mas que em seu código de entendimento, a linguagem se torne matéria sensível enquanto parte da realidade visível?
Nossa herança determinista está melhor adaptada a ver o mundo como algo distanciado do pensamento, porque é mais simples refletir do que pertencer ao estado bruto das coisas enquanto elas se dão.
Todos esperamos a certeza de um referencial estático que não nos incomode com questionamentos e problemas. Do sossego de objetos acabados que se pode comprar na feira. De enlatados prontos para o consumo. E essa palavra, interatividade, ainda parece um pouco distante da realidade. Ainda que, até na televisão, já existam programas para você decidir o final da trama.
O pensamento que move a pesquisa científica e, por extensão, a acadêmica, faz crer em dois momentos: um teórico (de reflexão) e outro prático (de ação) onde um estaria subordinado a outro, embora umbilicalmente ligados.
Mas o que, realmente, está por trás dessa maneira de reconhecer-se no mundo? Não se trata nem de pensar aonde é que acaba a natureza e começa o pensamento sobre a natureza, mas de entender, além da idéia de que cada coisa criada pertence ao mundo (desde Cézane, pelo menos), de que este mesmo mundo (enquanto unidade primordial) é um continuado processo em desdobramento e contaminação.
Se o fim de toda obra de arte é ela em si, então o mundo, a vida e o processo de toda a experiência tende a se congelar para que a criação (artística, científica, filosófica) possa ser contemplada como algo extraído deste local, como um reflexo de espelho, tornando-se mundo novamente, ou, parte indissolúvel deste.
''Contemplar é agir'', dizem os mestres do Zen Budismo. Mas, se a reflexão puder ser considerada também desde a criação até a constatação de suas características formais e analíticas, então estaremos diante de uma obra fechada como lugar privilegiado do conhecimento, em que se chegou a um ponto final no tempo e no espaço. Mas não devemos nos enganar pelas aparências, tudo está em constante mutação.
A Monalisa, por exemplo, enquanto o leitor lê este texto, algo da tinta, do chassi, da moldura que a enfeixa está se movimentando, se transformando. Ainda que a obra do Louvre esteja conservada em um ambiente onde a temperatura, a umidade e a iluminação sejam propícias à manutenção das características ''originais''. Bem neste momento em que a barba cresce entre o silêncio das eras geológicas, o pensamento, também ele, modifica e é modificado pelo olhar enigmático de ''La Gioconda''.
O quadro deixa de ser reflexão para se tornar película. Não há dois momentos, mas dois eventos simultâneos. Contemplação e ação são partes do mesmo questionamento. Teoria e prática só existem no momento em que uma se desdobra sobre a outra.
Há centenas de Monalisas. Milhões delas. De Duchamp a Frank Stella ou Andy Warhol, que também imprimiu a imagem do quadro famoso, a seu modo. Do leigo que vê uma estampa na revista de curiosidades aos turistas japoneses que invadem Paris em caravana para ver de perto o sorriso tímido de um retrato pintado.
Tudo é criação, interpretação e fecundidade. Ao invés de um pensamento sobre o objeto, temos é a construção de significados que não param de emitir enunciados. A obra continua se fazendo, não só na tela pintada, mas aqui, enquanto texto. Sorria, você acaba de se deparar e inventar uma genuína e secular obra de arte.
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