Entre todas as formas literárias, o romance ocupa lugar de destaque na preferência dos leitores. Da maneira como conhecemos atualmente, trata-se de um gênero literário relativamente recente na longa história da literatura. A maioria dos pesquisadores consideram que ele surgiu no início do século 17, na Espanha, com o lendário ‘‘O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha’’ de Miguel de Cervantes (1557-1616) derivado dos chamados ‘‘romances da cavalaria’’.
O gênero ganhou ascensão a partir do século 18, principalmente na Inglaterra e na França. No século seguinte, viveu o momento de grande explosão, uma consagração que se prolonga até os dias de hoje. Na verdade esse quadro histórico se restringe ao mundo ocidental. Isso porque no oriente o romance teria surgido muito tempo antes, no século 11. E mais, seu criador não teria sido um homem, mas uma mulher, a poetisa japonesa Murasaki Shikibu.
A história dessa mulher é resgatada em ‘‘A Lenda de Murasaki’’, romance da antropóloga norte-americana Liza Dalby que acaba de ser publicado pela Editora Objetiva. A autora constrói um suposto perfil da criadora de ‘‘A Lenda de Genji’’, obra apontada como o primeiro romance da história da literatura mundial.
Nascida na província de Miyako, desde a infância Murasaki Shikibu teve facilidade com a escrita. Dominava os caracteres chineses, coisa pouco comum entre as mulheres do Japão da Idade Média. Amante da literatura, refugiou-se do mundo externo em suas leituras e escritos – fato que espantou todos seus pretendentes, seu destino a conduzia para ‘‘titia’’.
No isolamento de seu quarto, começou escrever histórias protagonizadas pelo príncipe Genji, homem ideal e imaginário que despedaçava os corações das mulheres. Romântico, conquistador, bonito, forte, rico e educado, representava o tipo de homem que todas as moças sonhavam – já que eram obrigadas a casarem com o noivo que seus pais escolhessem de acordo com interesses próprios.
Através de cópias manuscritas, essas histórias começaram a passar de mão em mão entre as jovens japonesas. Fizeram tanto sucesso e repercussão que Murasaki foi convidada para integrar a corte imperial como uma das damas de companhia da imperatriz.
Vivendo na corte, imaginário que a encantava desde a infância, continuou escrevendo sobre Genji e sua aventuras com maior fidelidade. A vida social da aristocracia era o grande cenário de seus escritos. Por fim, a pedido da majestade, Murasaki compilou todas as histórias num único volume que recebeu o nome de ‘‘As Lendas de Genji’’.
Nessa trajetória, fica evidente que Murasaki Shikibu foi uma espécie de heroína ao lutar pelos seus anseios femininos numa sociedade totalmente dominada pelo valores masculinos, patriarcais e ‘‘machistas’’. Por outro lado, fez de sua obra um registro oficial da vida e da política da corte japonesa da época. Ao mesmo tempo que lutou por sua liberdade, tornou-se refém dos interesses da aristocracia.
Para escrever ‘‘A Lenda de Murasaki’’, Liza Dalby se baseou em fragmentos de diários deixado por Murasaki e no próprio ‘‘As Lendas de Genji’’. Além disso, utilizou sua produção poética. Esse, aliás, é o maior mérito do romance: ele traz, inseridos na narrativa, praticamente todos os wakas (em versão bilíngue) da poetisa que sobreviveram ao tempo. Waka era um antigo gênero poético que praticamente deu origem ao tanka, ao renga e ao hai-kai que conhecemos hoje. No texto eles funcionam como correspondência subjetiva entre os personagens – a poesia substituíndo cartas.
Liza Dalby ostenta o título de ser ‘‘a única ocidental a ter-se tornado gueixa’’ (difícil saber o que isso realmente significa). Especializada em cultura japonesa, viveu durante vários períodos no Japão onde desenvolveu suas pesquisas de doutorado e PhD. É autora de dois outro livros, ‘‘Gueisha’’ e ‘‘Kimono’’
Enquanto literatura, ‘‘A Lenda de Murasaki’’ é uma romance histórico que voa baixo. Apesar de ter a propensão de estar próximo das nuvens, permanece a alguns palmos do chão. O ritmo narrativo de Liza Dalby é o mesmo da primeira à última página, uma monotonia que pode incomodar alguns leitores.
Envolto em dois ingredientes básicos, a vida aristocrática e elementos da natureza nos ciclos sazonais, o trabalho de Liza Dalby possui fortes elementos femininos – sua narrativa parte do ponto de vista exclusivamente feminino. Pela reconstituição que realiza da história de Murasaki, deixa transparecer que a escritora japonesa, mais do que ter criado o primeiro romance do mundo, foi literalmente a inventora do romance água-com-açúcar.
Isso indica que o romance água-com-açúcar é mais antigo do que o romance ‘‘sal-com-vinagre’’. Também indica que as mulheres sonham, naturalmente, mais do que os homens. Isso há, pelo menos, mil anos.
A Lenda de Murasaki – De Liza Dalby, Editora Objetiva, tradução de Anna Olga de Barros Barreto, 452 páginas, R$ 39,90.