A inspiração e a transpiração
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terça-feira, 22 de julho de 2008
Caroline Vicentini<br> Reportagem Local 
Se você fosse aprender música, já pensou em qual instrumento escolheria? Ao ouvir as apresentações do Festival de Música de Londrina (FML), é difícil imaginar o sacrifício que alguns músicos fazem para tocar. Quem escolhe o fagote, a clarineta ou o oboé, por exemplo, além de ter que estudar muito, precisa também investir uma quantia considerável para comprar o instrumento. Alguns chegam a custar o equivalente ao preço de um carro. Talvez seja por isso que dos 22 cursos de instrumentos que o FML oferece este ano, o de fagote tenha 6 alunos enquanto que o de piano, por exemplo, registre 47 pessoas.
Na quarta-feira da semana passada apenas três pessoas participavam da aula. Fábio Benites, de Brasília, dedica-se ao estudo do instrumento há três anos. ''Vi um professor tocando e ele me fez o convite porque não tinha alunos'', relembra. Ele estuda no fagote da universidade e, atualmente, economiza para adquirir o próprio instrumento. ''Tive que escolher entre o carro e o fagote'', comenta. Segundo o professor Elione Medeiros, um fagote de boa qualidade pode custar de 12,5 mil até 45 mil dólares. De acordo com Medeiros, o único fabricante do instrumento na América Latina é o brasileiro Hary Schweizer. No site do músico um modelo completo custa R$ 11.550. Como a cidade conta com poucos fagotistas, Benites tem na internet a grande ferramenta de estudos e troca de idéias com outros músicos. Mesmo tratando uma tendinite, adquirida devido às dificuldades anatômicas do instrumento, o estudante planeja se profissionalizar para tocar em orquestras sinfônicas e lecionar.
Erico Marques Cunha e Kerle Cristina de Oliveira, ambos de Goiânia, dedicam-se há cinco anos ao estudo do oboé. Cunha reserva cerca de três horas diárias ao estudo do instrumento e vai a Brasília para ter aulas. ''Quase não toco em público porque a cidade não tem tradição de promover concertos e recitais'', constata. Kerle é uma das oboístas da Orquestra Sinfônica de Goiânia. ''Tocava clarinete mas troquei pelo oboé para ingressar mais rápido na Orquestra'', relembra. Kerle conseguiu comprar o próprio oboé graças a uma professora que vendeu o instrumento a um preço menor e em várias parcelas.
A confecção da palheta dupla (peça que ao ser soprada vibra e produz som) também é uma das dificuldades apontada tanto por alunos quanto por professores. A matéria-prima da palheta é a Arundo Donax, também conhecida como cana-da-índia. ''Fazer a palheta tocar é um trabalho artesanal. O músico precisa cortar, limar e lixar muitas peças até encontrar aquela que produza o som que mais lhe agrada'', explica o professor de fagote Elione Medeiros.
A estudante de regência Tatiane Soares, de Maringá, é autodidata no estudo do clarinete, instrumento que conheceu há cinco anos. ''Aulas com professor ocorrem com mais frequência durante os festivais dos quais participo'', conta. Esta é a terceira vez que Tatiane participa do FML. O músico da Orquestra de Sopros de Paranavaí, Fernando Campos, estuda clarinete há nove anos e procura se atualizar participando de festivais e viajando ao Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba para ter aulas particulares. ''Toco flauta e saxofone, mas o clarinete é o instrumento mais difícil. Já cheguei a estudar oito horas por dia. Agora o estudo é mais direcionado'', admite. Campos sonha ingressar em uma orquestra pública e ter o esforço reconhecido. ''É muito difícil ser músico no Brasil. Ainda mais músico erudito'', constata. André Luiz de Matos é o único professor de clarinete de Rondônia, estado onde reside há dois anos. Os estudos começaram há 12 anos, em Curitiba. ''Durante os quatro primeiros anos estudei sozinho e no clarinete emprestado pela igreja. Viajava eventualmente para ter aulas com um professor''.


