Além do talento musical, a inquietude parece ser também um dos pontos em comum entre Leila Pinheiro e Renato Russo. Morto prematuramente em 1996, vítima da Aids, Renato Russo comemoraria 50 anos em 2010, assim como Leila completa em outubro, incluindo 30 anos de uma carreira consagrada como intérprete de MPB. Embora não fossem amigos íntimos, Leila conta que sempre se impressionou com a lucidez das composições de Renato e lembra com saudades do dia em que ele apareceu na porta da sua casa, em 1994, para comporem juntos a letra de ''Hoje'' - uma das mais bonitas e conhecidas da sua trajetória musical.
O primeiro contato pessoal com Renato aconteceu em 1988, quando ela o procurou para mostrar a sua versão de ''Tempo Perdido'', de autoria dele, que estava se preparando para gravar com voz e piano. Do encontro resultaram alguns belos registros fotográficos de Ana Regina Nogueira, que estampam a capa e contracapa do CD, e deixam à mostra o jeito tímido e amoroso de Renato Russo.
Foi por sugestão de amigos que a cantora se deu conta de que ele também estaria comemorando 50 anos de vida agora. A data merecia uma homenagem nobre, que acabou resultando no disco ''Meu Segredo Mais Sincero'' (Biscoito Fino/O Tacacá Music), com estreia oficial do show prevista para agosto, no Rio de Janeiro.
Reunir e selecionar as músicas não foi tarefa fácil e o projeto virou desafio, já que pela primeira vez Leila estaria dando uma roupagem mais roqueira à sua voz, tão bem adaptada à MPB e Bossa Nova. Confira trechos da entrevista que ela concedeu à FOLHA.
O que foi mais difícil na realização desse projeto musical?
Eu já tinha uma certa familiaridade com as músicas do Renato, que regravei em alguns discos, mas desta vez tive que fazer um 'debruçar' mais profundo diante da sua obra para compreender algumas letras. Para isso contei com o trabalho da Denise Bandeira (que além de minha amiga foi amiga íntima do Renato), que me ajudou na 'consultoria emocional das letras' e a tirar o excesso de música na hora de interpretá-las.
Você consideraria este o trabalho mais difícil em 30 anos de carreira?
Com certeza, pois o rock'n'roll não é o meu universo pela minha formação musical. As composições, apesar de simples, tinham a sua complexidade e sempre ficava me questionando 'o que ele quis dizer?'. As letras, às vezes, pareciam devaneios musicais.
Um bom desafio para estrear os 50 anos?
Um grande desafio, uma mola propulsora para me tirar do comodismo. Não tenho tendência a ser acomodada, sou inquieta por natureza, e esse projeto me deu a oportunidade de falar com um público mais jovem e aprender coisas novas.
Como foi compor com ele a música ''Hoje''?
Ele apareceu em casa já com a ideia da música praticamente pronta. Queria que eu tocasse bossa no violão e ia dirigindo a minha mão. Depois fomos para o piano, ele cantarolava, elétrico, e estava à procura da melodia que se encaixasse à música que já estava na sua cabeça. Ele era intuitivo, generoso, receptivo. O manuscrito da letra, escrito por ele, acabou ficando comigo e a fita cassette com o registro desse dia acabei conseguindo em 2001.
Você imagina o que o Renato Russo estaria fazendo hoje?
Ele era muito curioso, inquieto e acho que estaria produzindo trabalhos muito criativos. Ele se foi muito precocemente e viveu de forma intensa, como outros grandes artistas que morreram cedo.
A angústia e a melancolia são frequentes nas composições do Renato Russo...
Pois é, ele viveu suas piores dores publicamente e expurgava isso através da sua música. Tinha seus dramas e conflitos familiares e lidava de forma muito afetiva com o seu público, que representava uma 'mãe' para ele.
No seu caso, o lado artístico também tem esse papel ''terapêutico''?
Sim, a música me salva, me regenera. Se não cantasse, estaria perdida. Principalmente agora, que estou com outra energia, e larguei a bebida e o cigarro. No meio musical é mais difícil viver de forma saudável, mas esse é o meu objetivo atual. Estou pensando na minha velhice e quero viver com saúde o tempo de vida que me resta, não dá mais para ficar perdendo tempo.
Então, agora, tudo é uma questão de manter a ''a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo''? (trecho da música ''Serra do Luar'', de Walter Franco, que virou hit na década de 90 com a interpretação de Leila)
(Risos). Ah..., essa é a receita da utopia; se conseguir duas dessas coisas já vai ser o nirvana para mim, mas não deixa de ser uma boa meta a seguir.
Serviço
- Meu Segredo Mais Sincero, de Leila Pinheiro
Gravadora - Biscoito Fino e O Tacacá Music
Informações - www.leilapinheiro.com.br

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