A injustiça da justiça
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de agosto de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Tudo indica que o escritor paranaense Domingos Pellegrini está trocando lentamente o conto, gênero que o consagrou nacionalmente, por narrativas mais longas. Em 1998 publicou seu primeiro romance, Terra Vermelha (Editora Moderna), um épico sobre a colonização do Norte do Paraná que deve, em breve, ser transformado em filme pelo cineasta Ruy Guerra. Agora é a vez de O Caso da Chácara Chão, romance policial que acaba de ser lançado pela Editora Record.
No livro, Domingos Pellegrini narra uma trama policial simples e realista. Um casal, Manfredine e Olga, que reside numa chácara próxima da cidade sofre um assalto. Dois homens armados invadem a residência em plena luz do dia. No desenrolar da ação, o marido reage desferindo golpes de facão nos marginais que fogem em disparada.
A polícia consegue prendê-los e aí os problemas começam de verdade. Em seus depoimentos, os assaltantes oferecem outra versão do episódio. Sem provas ou testemunhas, o casal deixa de ser simples vítima de assalto para se tornar culpados pelo incidente.
O suporte que Pellegrini constrói para essa trama é que confere ao romance um caráter literário mais abrangente: todo e qualquer projeto de uma utopia íntima e particular encontra sua inviabilidade nas mão do caos social urbano. Para completar, pontua a história com uma espécie de diário de chácara, onde descreve o cotidiano do cultivo de plantas e árvores, a convivência com animais domésticos e silvestres. Esse diário naturalista íntimo, é utilizado como contraponto à violência da vida social pautada pela desonestidade da situação.
O Caso da Chácara Chão é narrado por Manfredine, um espécie de alter ego de Pellegrini. Vendo-se envolvido numa situação absurda, passando rapidamente de vítima para culpado, resolve investigar os fatos por conta própria. Descobre que um dos assaltantes é policial, outro filho de uma rica e influente família da cidade. Entre policiais corruptos e advogados mercenários, constata que a decência de cada indivíduo está enroscada numa rede criminosa que sufoca grande parte das tentativas do florescimento da cidadania. Sua única alternativa será retirar a queixa contra os assaltantes.
Manfredine e sua família se instalam na referida chácara para realizar um antigo sonho rural: levar uma vida tranquila em contato direto com a natureza. O problema é que, ao fugirem da neurose urbana, um outro movimento tem início, ou seja, a neurose urbana se deslocam até eles.
Nesse sentido, o autor apresenta uma história narrada em dois tempos distintos. Um seria o tempo leal, aquele da natureza, o ciclo das estações, o crescimentos das árvores, o desenvolvimento dos frutos, enfim, a relação humana com um tempo que não comporta conflitos. Outro seria o tempo desleal, aquele que atormenta as pessoas com seu peso urbano, onde as relações tendem a ser socialmente sacanas, corruptas, oportunistas e falsas.
Se encarado enquanto como um mero romance policial, O Caso da Chácara Chão pode ser considerado uma obra de pouca força. Não há um caso policial propriamente dito a ser desvendado, muito menos um cadáver estendido no chão da incógnita. Se encarado como romance social, seu conteúdo ganha maiores proporções. Isso porque, na realidade, Domingos Pellegrini desenha um atualíssimo romance social ornamentado com uma trama policial. Seu mérito está em expor um contexto nem sempre encarado de frente: com a morte das utopias coletivas, as utopias individuais, ou mesmo familiares, ganham impulso meteórico. O doloroso conflito está no fato de que elas esbarram, querendo ou não, no contexto social em que estão inseridas.
O Caso da Chácara Chão, de Domingos Pellegrini, Editora Record, 336 páginas, R$ 28,00.


