Quando o jornalista Raimundo Pereira chegou à Amazônia para realizar uma grande reportagem sobre a abertura de estradas na região, conversou com um médico e expôs sua opinião sobre o lugar:
- Pois é, a miséria aqui é menor que em outras regiões do Brasil.
O médico se espantou:
- Quem lhe disse isso?
Foi então que o jornalista percebeu um clichê que lhe ofuscava a realidade, uma falsa informação que ouvira com frequência. Para conferir as condições de vida do povo local, Pereira resolveu acompanhar um médico sanitarista. A miséria observada foi surpreendente.
O fato ilustra os objetivos que norteiam a carreira de Raimundo Rodrigues Pereira: a busca de informações sob uma ótica próxima das classes populares, e sua utilização como agente de transformação social. É baseado nesses conceitos que o jornalista encampou os jornais alternativos ‘‘Opinião’’ e ‘‘Movimento’’, nas décadas de 70 e 80 - em oposição ao regime militar -, e agora encabeça a Oficina de Informações, que está gerando novas publicações. A primeira experiência já circula no País. É o número zero da revista ‘‘Manifesto’’, que traz uma reportagem exclusiva sobre os problemas da imigração ilegal na fronteira dos Estados Unidos com o México.
Raimundo Pereira esteve em Londrina na segunda-feira, a convite do Sindicato dos Jornalistas da cidade, para apresentar o projeto que almeja a produção alternativa de notícias. Hoje o jornalista estará em Maringá, onde vai ministrar um curso de reportagem para estudantes, professores e jornalistas, no Auditório do Fórum, a partir das 20 horas. A Oficina de Informações já possui uma página na Internet (www.oficinainforma.com.br), onde Pereira divulga artigos e reportagens em oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso e ao processo de globalização da economia brasileira, entre outros assuntos.
Antes de expor suas idéias no Sindicato dos Bancários de Londrina, pela manhã, o jornalista recebeu a Folha para a seguinte entrevista:
Como você se tornou jornalista?
Raimundo Pereira - Comecei como cronista de imprensa universitária. Escrevia fábulas para o jornal do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São Paulo, chamado ‘‘Suplemento’’, em 1960. Com o golpe de 1964, fui expulso da escola, onde estudava engenharia. Posteriormente trabalhei na grande imprensa como repórter da ‘‘Médico Moderno’’.
Da revista você passou para o ‘‘Opinião’’?
Raimundo Pereira - Eu trabalhava na imprensa de grandes empresas e tinha amigos na Faculdade de Filosofia que presidiam o Centro Acadêmico e o Diretório Central de Estudantes, que eram o José Arantes e o José Dirceu, do PT. Juntos fizemos o ‘‘Amanh㒒, um jornal para estudantes, entre 1967 e 1968. Foi o primeiro jornal chamado alternativo, feito para os trabalhadores em geral e vendido em banca. Era de esquerda, contra a ditadura e o peleguismo sindical, afinado com os movimentos de libertação da América Latina. O jornal sumiu com o AI-5. Trabalhei depois em revistas técnicas como ‘‘Transporte Moderno’’. Fiz para a ‘‘Realidade’’ algumas reportagens e fui para a ‘‘Veja’’ fazer a parte de ciência, pois sou formado em física. Fui editor de cultura e política até que houve uma crise com o governo e saí da revista. Fiquei mais de dois anos na ‘‘Realidade’’. Aí surgiu o convite para ser editor do ‘‘Opinião’’, que foi o primeiro grande jornal político de resistência à ditadura. O Fernando Henrique era o principal articulista.
Do ‘‘Opinião’’ você foi para o ‘‘Movimento’’.
Raimundo Pereira - Fiquei de 72 a 75, quando houve uma divergência política brutal, fui demitido e a equipe se demitiu em solidariedade. Nos mobilizamos então para fazer o ‘‘Movimento’’. O jornal fez uma campanha nacional para venda de cotas e um conselho editorial com gente importante, como o Fernando Henrique, o Chico Buarque, o Alencar Furtado. Durou de 75 até o final de 84, quando fizemos o ‘‘Retratos do Brasil’’, uma coleção de fascículos que depois se tornou semanário. Em 91, fechamos com muitas dívidas. Desde então trabalhei colaborando como repórter especial de ‘‘Veja’’. Em 97 comecei a articular a Oficina de Informações.
O que é a Oficina de Informações?
Raimundo Pereira - A imprensa brasileira é uma indústria com tendência à monopolização, submetida a um processo mais amplo que é preciso entender. Nós achamos que é necessário um ponto de vista diferente para se analisar o que está se passando. A primeira questão para se fazer uma boa imprensa é olhar as coisas de um certo ângulo. Para você ver o povo, você tem que estar junto dele. Nosso projeto quer retomar essa tradição de imprensa popular. É preciso achar uma resposta mais ampla a este regime (referindo-se à globalização). Este projeto é um esforço de fazer um jornalismo que eu poderia dizer mais amplo do que propriamente de esquerda. Neste fim de mês devemos passar de 800 cotistas. Gente que confia na contribuição que temos a dar à imprensa. Tem gente do PC do B, PPS, PT, PDT, PMDB, PSDB, empresários, trabalhadores, artistas, políticos e intelectuais. São pessoas que conhecem e reconhecem a necessidade de um trabalho de imprensa mais independente do interesse comercial puro e simples. O processo econômico está submetido a forças muito orientadas numa direção única, um pensamento único, uma idéia que ‘‘resolve’’ tudo, a globalização no comando do mercado. Esse processo já é antigo, e está visivelmente em crise. Existe a oportunidade para fazer coisas contra a maré.
Como a Internet e outras tecnologias estão influenciando o jornalismo?
Raimundo Pereira - As novas tecnologias, que se tornaram acessíveis, são instrumentos muito importantes. Facilitaram as comunicações, principalmente a organização das informações. O nome do projeto Oficina de Informações vem um pouco daí. Nós vamos divulgar um debate para desmistificar uma série de coisas que a tecnologia está ajudando a mistificar sobre o significado social de tecnologia moderna. Divulgaremos estudos que mostram que os computadores não aceleraram o crescimento da produtividade do trabalho em praticamente nenhum ramo industrial. É uma coisa que contraria o senso comum. Mas esse fatos não são contraditórios, com a constatação de que essas tecnologias abrem grandes possibilidades. Na área do jornalismo, se combinarmos essas tecnologias com o avanço e a polarização das decisões, do controle da informação, então vamos abrir possibilidade de participação mais ampla. A organização da informação não é um processo técnico, é um processo social, não existe sem discussão, debate. O jornal na Internet, por exemplo, pode ser alterado em várias edições por dia em função dos acontecimentos.
Esse imediatismo da informação não pode facilitar os erros?
Raimundo Pereira - É um problema mais complexo, porque cria essa ansiedade do novo, e o novo não é a última coisa que apareceu. Se você tentar descobrir o novo às vezes você passa por ele e não percebe. Essa pressa pode gerar um jornalismo a serviço de certos interesses que o próprio jornalista às vezes não sabe. Como o jornalismo vinculado aos interesses do mercado de capitais, com notícias que ajuda a mexer na cotação da bolsa para determinado grupo ganhar dinheiro.
Para você o jornalismo sempre foi um instrumento de transformação social. Como fica a busca da objetividade, tão difundida, em relação ao jornalismo opinativo?
Raimundo Pereira - A ciência moderna derrubou o mito da objetividade de qualquer conhecimento. Ninguém observa os acontecimentos de um Olimpo imaterial. O jornalista se empenha para descrever um acontecimento que se passa fora dele. O acontecimento é objetivo. Mas você observa o acontecimento de algum ângulo. É importante saber o ângulo de observação para conhecer suas limitações. Se você observar o movimento dos astros sem levar em conta onde você está, é um problema complicadíssimo. Se você estiver em uma estrela distante do sistema solar, a visão é muito diferente daquela de quem está na Terra, por exemplo.

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