A infância na Berlinda
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 1997
Ana Cristina Ioselli TV Press 
Arionauro/Carta Z NotíciasVera Fischer não está sozinha nas críticas a programas infantis. A atriz detonou o Xuxa Park no programa Por Acaso, de José Maurício Machline na Band, e chegou a sugerir que fosse tirado do ar. As críticas, é claro, foram devidamente negadas pela atriz num Domingão do Faustão. Mas muitas figuras da tevê dariam apoio à atriz, se ela procurasse.
A maioria não está satisfeita com o cardápio de opções que a tevê brasileira oferece a seus filhos. Norton Nascimento é um dos mais inflamados. 95% da programação infantil é muito ruim, detona, sem piedade, o pai de Luana, de 12 anos, Lucas, de 10, e Yasmin, de quatro. Norton fala com a propriedade de quem atualmente integra o elenco de Malhação, novela voltada para o público infanto-juvenil.
Segundo os pais, faltam mais programas educativos e culturais para as crianças. Em contrapartida, é unânime a reclamação quanto ao excesso de sensualidade voltada para a meninada. Não sou a favor de crianças colocarem a bunda na garrafa, protesta a dublê de atriz e repórter Cissa Guimarães, mãe de Rafael, de seis anos, e de mais dois adolescentes.
Graças a Deus a Justiça proibiu crianças imitando a dança da bundinha no Gugu, comemora Therese Lagranha. Mãe da pequena Debby, apresentadora do Clube da Criança, da Manchete, ela defende que os programas devem ensinar sempre alguma coisa para o público-mirim.
Carla Perez ainda nem estreou o programa infantil que tanto vem divulgando, mas é o alvo predileto das críticas. Não acho legal crianças imitando um símbolo sexual. É um crime, vocifera a jornalista Madalena Bonfiglioli, mãe de Jéssica, de 10 anos e Sílvia, de quatro.
Dou nota zero para a erotização da tevê, detona a atriz Nani Venâncio. Ela saiu de Mandacaru depois de um mal-explicado episódio em que teria se recusado a fazer cenas de nu na novela dirigida por Walter Avancini.
SalvaçãoEm meio a opções lamentáveis na tevê comercial, a tábua de salvação da maioria dos pais é a TV Cultura/Rede Brasil. Mais especificamente, o Castelo Rá-tim-bum, eleito por nove entre dez pais como o melhor infantil da tevê no momento. Ainda que venham sendo exibido apenas episódios reprisados. O Castelo é um programa que foge ao lugar-comum, elogia a modelo e atriz Luiza Brunet, que sempre incentiva a filha Yasmin, de nove anos, a assistir ao programa.
Outro problema apontado nas tevês é o excesso de merchandising dentro dos programas, o que incentiva o consumismo. É o que pensa Fabiana Scaranzi, apresentadora da meteorologia do Jornal Nacional, que fecha o tempo quando fala do assunto. Os programas chegam a fazer competições usando produtos do merchandising!, indigna-se Fabiana, mãe de Felipe, de quatro anos.
Mas, muitas vezes, o gosto das crianças independe da vontade dos pais. Na hora de sintonizar a tevê, Luana, de seis anos, filha da atriz Bernardete Lyz e do renomado dramaturgo Dias Gomes, gosta mesmo é de acompanhar a sofrível novela Chiquititas, do SBT. Até a novela que eu faço, Zazá, ela acha chata. Mas adora Chiquititas, compara Bernardete. Pelo menos, é melhor que ver novelas mais ousadas para a idade dela, conforma-se a atriz.
Se as opções não são boas, é preciso eleger a menos pior. Das louras que se especializaram em entreter crianças a bordo de shortinhos e minissaias, Eliana, do SBT, consegue agradar a diferentes gostos. Ela é excelente. Faz o papel de amiga das crianças e ensina várias coisas, enaltece a repórter Madalena Bonfiglioli.
A polêmica Carla Perez também já mostrou-se fã da apresentadora infantil. Quero fazer um programa educativo como o dela, jura a loura do É o Tchan. Pensando em chamar seu futuro programa de Ciranda do Samba, fica difícil imaginar como ela vai conseguir tal proeza.
Fabiana Scaranzi pondera. Ela lembra do passado de Xuxa, quando posou nua, como modelo, para várias revistas masculinas e hoje é considerada a Rainha do Baixinhos. Em tevê, o mais importante é o carisma, constata. É assim que muito programa lamentável tem espaço no vídeo, obrigando as crianças a se contentarem com o pouco.
Volta ao passadoQuando falam da infância dos filhos, automaticamente os pais voltam no tempo e lembram com saudades da época que eram crianças. O que havia de bom para se ver na infância de cada um? Vila Sésamo, Circo do Arrelia, Zás-Trás, Capitão Asa e Os Batutinhas são alguns dos programas citados. Mas é mesmo o Sítio do Pica-pau Amarelo eleito como o melhor programa infantil de todos os tempos.
Baseado na obra de Monteiro Lobato, o programa mostrava Dona Benta, interpretada por Zilka Salaberry, contando histórias para os netos Pedrinho e Narizinho. O folclore nacional aparecia através do Saci-Pererê e da mula-sem-cabeça. E havia ainda a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa.
O Sítio tinha a ingenuidade que falta hoje à tevê, diz Patrícia Luchesi, mãe de Mateus, de quatro anos, e que atualmente integra o elenco do programa Sérgio Reis do Tamanho do Brasil. Era uma delícia, resume Helena Fernandes, que interpreta a vilã Silvana Karloff em Caça talentos, e é mãe de Yan, de nove anos.
Cissa Guimarães é enfática. Falta algo essencial à tevê: cultura, diz. Ela cita não só Monteiro Lobato, mas também Júlio Verne como autores que deveriam ser mais adaptados para a tevê. A figura da Dona Benta mostrava uma relação de carinho com as crianças que hoje não se vê na tevê, lamenta Madalena Bonfiglioli.


