A INFÂNCIA DA GUERRA
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de setembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Dificilmente alguém já viu um ratinho e uma rãzinha abraçados andando pela rua sorrindo e chupando pirulito. Da mesma maneira, praticamente ninguém teve a oportunidade de ver um ratinho e uma rãzinha brigando, aos tapas, por uma bala de framboesa.
O ilustrador russo Nikolai Popov, por exemplo, é a única pessoa que presenciou uma rara cena semelhante: uma rãzinha e um ratinho brigando, sem motivos aparentes, por uma flor. Uma briga que ganhou grandes proporções, culminando numa verdadeira guerra.
Como foi o único a presenciar tal fato, uma flor causar uma batalha, revolveu contar a fantástica história para crianças. Assim, crio um livro chamado Por Quê?, obra infantil que acaba de ser publicado pela Editora Ática.
Através de belos desenhos, Nikolai Popov conta a história de uma pequena rã e um pequeno rato que se envolvem numa tremenda confusão devido a uma bobagem. Tudo começa com a rãzinha tranquilamente apreciando as flores de um campo. Saindo de um buraco próximo, aparece o ratinho com seu pequeno guarda-chuva e, no meio de tantas flores, ele demonstra interesse naquela que está justamente nas mãos da rãzinha. Sem pensar duas vezes, nem pedir licença, arranca a flor das mãos do bichinho.
Inconformada com tal violência, a rãzinha chama suas amigas para ajudá-la a resolver o impasse. Colocando o ratinho para correr, a turma passa a brincar com a guarda-chuva abandonado pelo bicho durante a fuga. Acontece que o ratinho, revoltado, também chama seus amigos para resolveram o novo impasse. Assim, os ratos investem contra as rãs, colocando-as para correr.
Nesse processo, tem início um sucessão de batalhas. A cada nova invertida de um dos lados, os grupos tornam-se mais numerosos e mais violentos. Ao final, com tudo devastado pela guerra, ao ratinho resta apenas uma flor murcha e despetalada, e à rãzinha, apenas um guarda-chuva furado e todo arrebentado. Com essa última imagem, surge a palavra que dá título ao livro: Por Que?
O final da história é uma indagação que o leitor deverá responder. Para isso, terá que voltar a ver/ler a história. Só que dessa vez de traz para frente, recolhendo a causa de cada efeito, página por página, até encontrar a causa original do conflito. Uma causa que poderia ser evitada de maneira simples e, dependendo da disposição, de ambos os lados.
Em Por Quê?, Nikolai Popov procura mostrar às crianças que grandes problemas tem início em pequeno erros. Pequenos equívocos que, quando não são resolvidos de maneira pacífica logo no início, crescem e assumem proporções imensas. Ficam tão grandes a tal ponto que os envolvidos chegam até mesmo a esquecer a origem de tudo, o real motivo. Além disso, deixa claro que se os conflitos podem ser resolvidos de maneira simples e pacífica. Para isso, basta que pelo menos uma das partes esteja interessada em tal postura.
Originalmente Por Quê? foi criado como um livro composto apenas de imagens, onde os desenhos narravam toda a história. Posteriormente ganhou pequenos textos escritos por Géraldine Elschner, uma espécie de legenda para a narrativa visual de Nikolai Popov. Nesse sentido, é uma obra que poder ser lida em dois níveis: um puramente visual, outro unindo texto e ilustrações.
A história de Popov parece dizer, de maneira poética, que as origens dos conflitos entre as crianças e entre os adulto são semelhantes. Uns brigam por uma bala, outros por um carro, daí para a guerra é uma questão de tempo. Com isso, voltamos à pergunta: por quê?
Por Quê? de Nikolai Popov, Editora Ática, texto de Géraldine Elschner, tradução de Ruth Salles, 40 páginas, R$ 10,90 (preço promocional, em comemoração aos 35 aniversário da Ática, até outubro de 2000: R$ 5,90).


