A IMPRENSA NA MIRA DE KUCINSKI
Nelson Sato
O jornalista Bernardo Kucinski não baixa a guarda. Sobrevivente da geração que enfrentou a ditadura atuando na imprensa alternativa, ele esteve no começo da semana em Londrina, onde veio lançar seu novo livro A Síndrome da Antena Parabólica e participar de um debate na Universidade Estadual de Londrina.
Seu livro reúne uma coleção de artigos polêmicos sobre a mídia brasileira. Atualmente, é professor do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicação de Artes da USP. Seu currículo é invejável, no que tem de experiência na imprensa de oposição. Depois de ser editor da revista Veja, passou por quase todas as publicações independentes surgidas na década de 70, entre elas a revista Bondinho e os semanários Opinião, Movimento e Em Tempo.
É autor do livro Jornalistas e Revolucionários: nos Tempos da Imprensa Alternativa, lançado em 1991 e considerado referência fundamental na bibliografia sobre o assunto. É autor também de Jornalismo Econômico, premiado há dois anos com o prêmio Jabuti. Na entrevista que segue, ele trata de temas como a falta de ética dos jornalistas, os novos projetos de imprensa alternativa e a linguagem dos colunistas.
O senhor tem sofrido algum boicote da grande imprensa por causa do livro, já que nos artigos e ensaios ali reunidos o senhor dá nome aos bois?
Há um certo boicote na divulgação do livro. Mas estou acostumado com esse tipo de atitude, porque sou considerado maldito no meio jornalístico. Publiquei um livro sobre a dívida externa na época da crise da dívida em 76 que teve mais críticas na imprensa estrangeira do que aqui, onde foi praticamente ignorado. O problema é que o jornalista brasileiro é muito sensível, ele não aceita críticas nominais.
O senhor afirma no livro que os meios de comunicação substituíram as praças públicas na definição do espaço coletivo da política no mundo contemporâneo. No Brasil, movimentos sociais como o dos trabalhadores rurais sem-terra não iriam na contramão dessa tendência?
De fato, no Brasil ainda existe a política real de rua. Mas mesmo movimentos como o do MST, ou manifestações de protesto em frente à Praça dos Três Poderes em Brasília, são programados visando a cobertura da imprensa. Na verdade, eles se importam muito mais com a disseminação dos eventos pela mídia do que com os eventos em si. Sou do tempo em que comícios reuniam de 5 a 10 mil pessoas. Hoje em dia, nem as famosas festas do PT conseguem atrair esse número. O espaço material da política foi absorvido pela mídia. E isso modifica as maneiras de se dirigir para o público. Nos países em que esse fenômeno está em estágio mais avançado, os candidatos presidenciais são escolhidos pelo apelo televisivo que ostentam e não pela eloquência de seus discursos. A preferência recai para aqueles que falam calmo, mansinho, porque essa é a linguagem da TV. É o caso de Clinton. Não é o caso de Lula, que é ruim de TV.
Lula aparece em seu livro como tema de três artigos que tratam das três campanhas para as eleições presidenciais. Num deles, o senhor observa que os meios de comunicação articularam-se às elites e ao Executivo - e também à polícia - em manobras destinadas a derrubar o PT, incluindo aí o caso Leme em 1986, o caso Diniz em 1989, o caso Oswaldo Cruz Filho em 1994 e o caso Detram em 1998. Na palestra realizada na UEL, o senhor lembrou um episódio espantoso sobre as armações de jornalistas para prejudicar a candidatura de Lula, a partir da cobertura de uma assembléia de operários. Poderia contar a história aos leitores?
Aquele episódio mostrou que o repórter moderninho é antipetista e que virou moda tripudiar o PT e todo o campo popular. Na ocasião, o Vicentinho falava numa assembléia de trabalhadores e, a uma certa altura, apresentou uma proposta de arrecadação de dinheiro para a campanha do Lula. Ao discursar, acrescentou que o Fernando Henrique recebia ajuda dos patrões. Quando falou a última frase, os trabalhadores vaiaram. No dia seguinte, os jornais noticiaram que os trabalhadores tinham vaiado a proposta de ajuda ao Lula. Aquilo foi um ato deliberado, foi combinado entre os jornalistas que estavam ali presentes. Eles queriam sacanear a campanha do Lula, o que ficou evidente na última eleição, quando virou uma competição para ver quem sacaneava mais. Virou uma coisa cultural, uma moda. Hoje em dia, a maioria dos jovens jornalistas de São Paulo tem um perfil definido: é um fernandinho yuppie, que vai nos barzinhos da Vila Madalena e acha que esse negócio de PT é brega e Lula é um coitado que não se enxerga em querer ser presidente. Esse fenômeno é bastante visível, e torna-se um desastre para o jornalismo, porque fere um preceito da ética da profissão: a equidade, que diz que você tem que ser mais aberto (não digo favorecer) para os que estão por baixo. O jornalista não é neutro entre o forte e o fraco. Ele é honesto e objetivo, mas tem que dar mais guarida para o fraco. O governo não precisa do apoio da mídia. Precisa de vigilância.
Nunca se discutiu tanto a imprensa como hoje. Há revistas, programas de rádio e TV, boletins, a figura do ombudsman, toda uma tendência na qual se insere inclusive seu novo livro. Como o senhor analisa esse fenômeno? Já é possível afirmar que ele melhorou a qualidade da mídia?
O fenômeno não chega a ser novo, já que o Alberto Dines já discutia a imprensa em sua coluna Jornal dos jornais, que era publicada pela Folha de S.Paulo em 1975. Mas o que parece ocorrer hoje é a existência de um campo de crítica de mídia. Há todo um conjunto de projetos que está refletindo a insatisfação do público e a necessidade de discutir os veículos de comunicação. Mas os debates ainda estão fracos. A revista Imprensa, por exemplo, fica jogando confetes de um jornalista para outro: Como meu chefe era bacana... O próprio Dines fica falando besteiras, como ocorreu recentemente quando afirmou que a imprensa não poderia divulgar os grampos porque grampear era ilegal. Além disso, não temos uma tradição de crítica em geral. No Brasil, ou você elogia o cara porque ele é seu amigo, ou você o ignora porque não quer dar uma colher de chá. Há ainda o fato de as raras críticas não serem bem-aceitas pelos criticados.
O Paulo Francis, que poderia ser visto como um contraponto a essa ausência de crítica, é tema de um artigo demolidor em seu livro. Ele deixou herdeiros na imprensa brasileira, deixou um método Francis de escrever?
Escrevi esse texto a partir de uma palestra que fiz no simpósio internacional Brasil, País do Passado, realizado na Universidade Livre de Berlim, em 98. Fui convidado para falar de Paulo Francis, enquanto outros participantes abordaram outras personalidades brasileiras mortas recentemente, como Paulo Freire, Antonio Callado e Darcy Ribeiro. Preparei um texto que explicasse o porquê de ele ter ficado famoso difamando todo mundo com fofocas pesadas. Eu lembro da época em que íamos passar os finais de semana numa chácara, e todos comentavam o que ele tinha escrito na véspera. Não sei se ele deixou herdeiros, mas acredito que muitos articulistas praticam um tipo de linguagem envenenada muito explorada por ele. Chegou-se à conclusão de que a linguagem regular não se destaca mais, não comunica, não atrai mais os leitores. É o que se percebe na coluna do Macaco Simão. Até o Joelmir Beting parece aderir a esse método. Antes ele usava alegorias e metáforas, depois passou a exagerar usando metáforas em cima de metáforas a ponto de não se entender mais nada do que ele está dizendo. O Elio Gaspari, que é a melhor caderneta de repórter do Brasil (ele fala com quem quiser, sempre trazendo informações quentes), é outro que mistura realidade e ficção usando vários recursos para se destacar. Muitas vezes, ele faz montagens fotográficas que você fica sem saber se aquilo é uma piada ou é para ser levado a sério. Não é uma lógica da razão, do argumento organizado. É uma razão lúdica que só confunde o leitor.
O senhor faz parte de uma geração que enfrentou a ditadura militar atuando na imprensa alternativa. Que experiências jornalísticas de hoje se aproximam de publicações como Pasquim, Opinião, Movimento, Versus, Bondinho e outras?
Os jornais alternativos acabaram e sobrou pouca coisa daquele período. Tem o pessoal do Pasquim que está voltando com Bundas. Mas o problema da imprensa se confunde com a história da esquerda no País, que sofre da descontinuidade de projetos por causa da repressão. Hoje corre uma discussão muito grande no campo popular para a criação de um veículo de massa de impacto. Todos estão insatisfeitos com a mídia estabelecida. Tem havido reuniões. Há um projeto do deputado Rui Falcão (do PT), outro de Raimundo Pereira, mas por outro lado existe um trauma enorme com experiências fracassadas. Outros grupos estão discutindo as possibilidades da Internet servir como um grande espaço alternativo de comunicação. É uma revolução em curso, mas tudo ainda é novo na rede.Jornalista ligado à imprensa alternativa na época da ditadura fala sobre ética, linguagem e novos projetos editoriais
César AugustoBernardo Kucinski: currículo inclui passagens pela revista Veja e jornais Opinião e Movimento





