A imprensa em questão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de maio de 1999
Nelson Sato 
Nunca se discutiu tanto a imprensa como hoje. Os jornalistas de um lado, e o público de outro, revelam um interesse crescente pelo debate em torno da mídia.
Aos poucos a análise do noticiário e o questionamento dos meios de comunicação parecem se incorporar ao universo editorial quase como um gênero jornalístico, dotando alguns veículos de autocrítica e de uma mediação com os leitores, ouvintes ou telespectadores.
Mas é uma tendência ainda por se estabelecer, apesar do fenômeno ganhar visibilidade através de fatos como o lançamento recente da revista Jornal dos Jornais, a consolidação da figura do ombudsman e a existência de programas como Notícias da Manhã (Rádio CBN) e Observatório da Imprensa (TV Cultura e TVE) - este último, aliás, está comemorando seu primeiro aniversário no ar esta semana.
O livro A Síndrome da Antena Parabólica, do jornalista Bernardo Kucinski, 62 anos, é mais uma contribuição a esse debate. Traz 13 artigos de reflexão, nos quais o autor enfia o dedo em feridas mal cicatrizadas da imprensa brasileira. Contrariando a cultura corporativa do nosso jornalismo, não hesitei em citar criticamente textos jornalísticos e seus autores e editores - avisa ele, logo na introdução.
É o nono livro de Kucinski, que hoje é professor de Jornalismo na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). O ensaio de abertura aborda o papel de controle social que, segundo ele, cada um dos meios de comunicação exerceria na vida brasileira seja através da criação de um consenso (imposto pelas elites) ou na definição da agenda nacional de discussões.
ReproduçãoRede Globo: emissora tenta determinar os destinos da naçãoA Rede Globo lideraria o complô atuando como um quase-partido, determinando o que seria bom ou ruim para os destinos do País. Segundo ele, nos escritórios de Roberto Marinho é que teria sido sacramentada a aliança PSDB-PFL, concebida para durar pelo menos 12 anos, oito sob Fernando Henrique e mais quatro sob o falecido Luis Eduardo Magalhães.
Mais adiante, em outros capítulos, Kucinski analisa o comportamento da mídia na cobertura das eleições presidencias realizadas depois do fim da ditadura e também durante o processo de impeachment do presidente Fernando Collor. No texto que dá título ao livro, trata da autocensura nas redações partindo do famoso mico do então Ministro da Fazenda Carlos Ricupero, em 1994, enquanto aguardava uma entrevista no estúdio da TV Globo.
Como é de conhecimento de todos, Ricupero confidenciou ao jornalista Carlos Monforte que vinha se aproveitando do cargo para promover a candidatura de FHC.
Falando pelos cotovelos, não sabia que os microfones estavam ligados e que a conversa estava sendo transmitida via satélite e captada por antenas parabólicas em várias regiões do País. O grotesco episódio terminou, como se sabe, com a demissão do ministro. Mas Kucinski faz uma outra leitura da circunstância.
Mais do que um caso de abuso da máquina administrativa, como foi identificado na ocasião, ele acha que houve acima de tudo um escândalo jornalístico. O autor acusa o profissional da Globo de ter atribuído caráter privado a informações de interesse público, sem usá-las em sua entrevista. Monforte, diz ele, não se sentiu envergonhado, não precisou se desculpar, muito menos demitir-se. Foi como se ele não tivesse nada a ver com a encenação.
A Síndrome da Antena Parabólica inclui ainda análises devastadoras da Folha de S.Paulo (o jornal mais lido e mais odiado do País), do jornalismo de Paulo Francis (Muitos tentaram imitá-lo mas ninguém conseguiu igualá-lo, porque ninguém ousou levar tão longe sua falta de escrúpulos na arte de injuriar, difamar e caluniar) e do jornalismo econômico praticado no Brasil (tornou-se um discurso totalizante, aético e dogmático passando a falar como portador do modelo neoliberal).
Completam o volume comentários acerca dos livros Chatô - o Rei do Brasil (biografia de Assis Chateubriand escrita por Fernando Moraes) e Brazilian Crusader: The Years 1914-1960 (biografia de Carlos Lacerda de autoria de John W. F. Dulles), além de um artigo sobre a imprensa alternativa da década de 70.
Este último é, na verdade, uma atualização do texto introdutório de seu livro Jornalistas e Revolucionários, publicado em 1991 pela Scritta e já esgotado. A Síndrome da Antena Parabólica é um lançamento da editora da Fundação Perseu Abramo.


