A impossibilidade do amor
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de fevereiro de 1999
ReproduçãoMarcos Losnak Especial para a Folha2 
Certos escritores quando atingem uma aceitação e respeitabilidade pelo seu trabalho, quando atingem um amplo público leitor, tendem a escrever mais e mais. Se algum de seus livros faz sucesso, deve escrever outro, outros e outros. A suposta fama é interpretada como se estivessem no caminho certo, oferecendo o que o leitor deseja ler.
Também há certos escritores que fazem um caminho contrário. Após a aceitação do público e respeitabilidade pelo crítica de seus escritos, tendem, num certo momento, não publicar em função da suposta fama. Realizam um caminho diferente, por uma série de motivos, sejam existenciais, pessoais ou estéticos, deixam de escrever, ou de publicar. Na literatura brasileira contemporânea, alguns nomes se enquadram perfeitamente neste quadro, como Otto Lara Resende e Carlos Heitor Cony.
O escritor e jornalista carioca Carlos Heitor Cony publicou seu primeiro livro, O Ventre, em 1958. Após publicar nove romances com sucesso, resolveu permanecer em silêncio. Permaneceu 23 anos sem publicar nenhuma obra. Quebrou o silêncio em 1995 com romance Quase Memória. Na sequência vieram O Piano e a Orquestra (1996) e A Casa do Poeta Trágico (1997).
A Editora Companhia das Letras, responsável pelo lançamentos das três obras começou, então, a republicar os velhos romances de Cony fora de catálogo, O Ventre (1958), Antes, o Verão (1964) e Pessach: a Travessia (1967). Dando sequência lançou recentemente Matéria de Memória, originalmente publicado em 1962.
Matéria de Memória é uma história sobre a impossibilidade do amor. É narrado através das vozes de três personagens, Tino, Selma e João, cada um oferecendo sua própria visão dos acontecimentos de acordo com suas personalidades.
Carlos Heitor Cony já declarou várias vezes que em seus romances a história não interessa muito, mas sim a reflexão que ela pode provocar. Neste sentido, o enredo de Matéria de Memória é simples. Tino é um conflituoso pintor que se casa com Julia e logo se apaixona pela sua mãe, Selma. Mãe de dois filhos, Julia e João, Selma é uma jovem viúva e também logo se apaixona pelo marido da filha. Um belo dia Julia morre e os dois viúvos, Tino e Selma passam a viver na mesma casa.
O drama é que Tino acredita que Selma não o ama e nunca chega a se declarar. Do mesmo modo, Selma não acredita que Tino a ame e nunca chega a se declarar. Seguem caminhos diferentes, mas permanecem atormentados mentalmente, pelo resto de seus dias, pelo desejo de aproximação.
Toda a narrativa do romance se fundamente na memória de cada uma das vozes narradoras, onde o passado é muito maior que o presente. A memória torna-se uma pedra em que cada um precisa carregar em suas trajetórias. A memória encarada como uma maneira de colocar o presente à deriva.
Em Matéria de Memória, Cony toca num ponto que, geralmente, é esquecido ou mesmo negligenciado pela maioria das pessoas: o amor nem sempre é construtivo, em alguns casos ele pode ser destrutivo.
Matéria de Memória de Carlos Heitor Cony, Editora Companhia das Letras, 198 páginas, R$ 21,00.


