Antônio Calloni tem orgulho de conseguir se moldar aos mais diversos tipos de personagens. Já chegou a engordar quase 15 kg para viver o poeta e político Augusto Frederico Schmidt em ''JK'', mudou diversas vezes o tom dos cabelos e usou lentes de contato para alterar a cor dos olhos. Atualmente na pele do sórdido César, em ''Caminho das Índias'', ele se diverte relembrando a saga para perder 20 kg, ganhar um visual mais saudável e dar um ar de galã ao advogado trabalhista que encoberta as maiores armações do filho Zeca, de Duda Nagle. ''Cada vez mais gente estimula a cultura da esperteza, tão próxima da falta de caráter. O alcance de um personagem desses pode ser enorme. É necessário alertar os pais que protegem as barbaridades dos filhos'', alerta.


Você acredita na verossimilhança das atitudes do César, um pai que estimula a marginalidade do filho?

O César não fala exatamente ou diretamente para o Zeca bater nos outros ou subornar um guarda. Na verdade, o César tem uma afetividade deformada pelo filho. Ele acha que está educando o Zeca para ser macho, não para ser homem. Seria mais legal educar o filho para ser homem, que é mais completo, mais humano. Meu personagem acredita que esse tipo de agressividade faz parte do universo masculino e, por isso, incentiva essas atitudes alteradas. Existe gente assim e até pior que isso.

Que caminhos você buscou nessa composição para um tipo tão amoral?

É cada vez mais comum sermos bombardeados por notícias de filhos que cometem barbaridades e os pais estão lá, defendendo. Tem rapazes presos por desacato, por agressão, por tráfico e que são acobertados pela família. Você reconhece essas pessoas em vários lugares. Infelizmente, esse tipo é muito fácil de encontrar no Brasil. Na classe política, existem vários tipos de César, assim como na sociedade de um modo geral, onde está enraizada a cultura da esperteza no mau sentido.

O fato de você ter acabado de interpretar um tipo tão pacato em 'Beleza Pura' teve alguma relevância em aceitar um convite para um personagem tão extremado?

Ele está cumprindo uma função social que acho fundamental colocar em discussão: o abuso do poder, a falta de ética, a falta de limites na educação de um filho.

Personagens com uma função social arraigada têm mais apelo ?

O que mais me atrai mesmo na televisão é o lado lúdico do entretenimento. Faço um trabalho para as pessoas sonharem durante meia hora. Acho que isso faz um bem danado à sa© úde. Tem gente que acha pouco só entreter. Eu não. É fundamental proporcionar esse desligamento do público e fazê-lo sonhar. Não concordo que a função principal da tevê seja a causa social. O primordial é o entretenimento.

Apesar de toda a amoralidade do César, o personagem também tem um lado sutilmente cômico. Esse humor foi intencional ?

Sem dúvida nenhuma, ele tem uma vilania, mas não é exatamente um vilão, é pior que isso. O vilão costuma ser mau-caráter. O César não tem caráter nenhum, é realmente amoral, capaz de vender a própria mulher para conseguir as coisas que quer, passa por cima de tudo e todos. Com isso, ao mesmo tempo que o público sente um ódio profundo do César, ele é um sedutor, tem uma simpatia por um leve toque de humor. Isso o faz muito transgressor. Tudo que transgride a normalidade e desobedece os preceitos fascina. O ser humano tem esse desejo. Essa postura de total liberdade atrai as pessoas, mesmo que seja para um lado suspeito.

Você parece ter prazer em se moldar fisicamente para os personagens. Engordou bastante para fazer o Schmidt e agora emagreceu quase 20 kg para viver o César. Vale tudo por um papel?

Acho que vale quase tudo. Temos nossos limites e isso tem de ser respeitado. Tenho versatilidade na minha carreira. Mudo de acordo com o espírito do personagem. Esse é meu principal brinquedo. Não dá para tirar isso de um ator.

mockup