A imponência custa caro
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sexta-feira, 22 de novembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O governo do Estado corre contra o tempo para entregar hoje, às 18 horas, o NovoMuseu, um dos maiores projetos arquitetônicos da gestão do governador Jaime Lerner (PFL). Ontem, menos de 24 horas antes da cerimônia de abertura, que vai contar com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o clima no prédio era de confusão. Pelo menos 600 operários ainda trabalhavam para tentar acertar os últimos detalhes da obra.
Além de pedreiros, pintores, eletricistas e uma infinidade de profissionais empenhados em finalizar o que pareceria precisar de pelo menos mais uma semana para ser entregue, os artistas também estavam ajudando a montar as exposições. O espaço só foi liberado para montagem ontem, quando nem o séquito de Lerner sabia informar como o espaço será administrado depois de sua inauguração.
Uma dúvida dos artistas paranaenses era se eles, que estão expondo em três salas do museu, vão poder fazer parte do evento de abertura, já que não receberam convites e até ontem não tinham sido cadastrados para o que promete ser uma disputada cerimônia. Para o evento de hoje foram enviados 8 mil convites. A organização do cerimonial espera receber 3,5 mil pessoas, entre artistas, arquitetos entre eles, o ''dono da obra'' Oscar Niemeyer e representantes do governos estadual e federal.
Dezenas de convites também foram enviados para arquitetos estrangeiros. A Secretaria de Assuntos Estratégicos, responsável pelas obras, informou que as despesas estão incluídas no montante de 14 milhões de dólares (R$ 49 milhões, de acordo com a cotação média do dólar nos últimos dias), destinado à reforma do prédio. Recurso considerado pequeno para uma obra tão grandiosa, segundo o governador. ''A expansão do Museu de Arte Moderna de Nova York custou US$ 400 milhões. Com 3% disso estamos criando o maior museu do País. É um momento histórico para a cultura brasileira'', declarou, através de sua assessoria de imprensa.
A mudança arquitetônica do antigo Edifício Castello Branco foi realizada em tempo recorde: cinco meses. Nos últimos dias, todos os esforços do governo estavam concentrados na obra para garantir que ela fosse entregue antes do final do mandato. São 33 mil metros de área construída, dos quais 16,7 destinados a exposições. ''Toda uma estrutura está sendo entregue. Não há improviso'', diz o secretário de Assuntos Estratégicos, Alex Beltrão. Ele ressalta que vai caber ao governador decidir, com os setores de transição do governo, o futuro do prédio e como o mesmo será administrado.
''Não há dúvidas de que a obra é belíssima, mas o museu ainda não existe'', argumenta o curador da mostra paranaense do NovoMuseu, Fernando Bini. ''Um museu é um sistema administrativo e nesse caso ninguém sabe como esse sistema vai funcionar '', analisa. Assustado com as condições que o governo ofereceu para que as mostras fossem montadas, Bini comparava o prédio a uma ''escultura'' e não a um espaço cultural. ''É uma loucura fazer a montagem nessas condições'', observa recordando dos tempos de doutorado na Sourbone, uma das mais conceituadas universidades de Paris. ''Lá, uma semana antes da abertura da exposição ao público, a mostra já está pronta.''
Bem diferente do que acontece no NovoMuseu. Ontem, a maioria das obras estava embalada e encostada nas paredes. Estima-se que cerca de 2 mil obras estejam expostas para a abertura do museu (leia matéria na página 2).
O prédio, que se transformou numa das mais modernas contruções de Curitiba, foi desenhado por Niemeyer no final da década de 60 para ser o Instituto de Educação, função que, aliás, nunca exerceu. Foi a única obra que o arquiteto que projetou Brasília aceitou modificar, atendendo a um convite pessoal de Lerner. Para modernizar o complexo horizontal escolheu o ''olho suspenso'' que deixa boquiaberto qualquer transeunte desavisado que passa pelo Centro Cívico. Niemeyer chegou ontem em Curitiba para ver pela primeira vez, ao vivo, a obra que acompanhou por videoconferências.
Instalado em um complexo de 144 mil metros quadrados, o projeto integra o Programa de Valorização Cultural do Estado do Paraná e os recursos foram obtidos pelo governo por meio da Secretaria do Desenvolvimento Urbano (Sedu), junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O prédio abrigava diversas secretarias estaduais, que foram transferidas para a antiga sede do Conglomerado Banestado, no Bairro Santa Cândida.
Além da área para exposições, o NovoMuseu conta com um auditório de 400 lugares e uma sala de 70 lugares. O projeto ainda prevê instalação de ateliês de restauro de obras, reserva técnica, com docas para carga e descarga de obras e materiais de preparo de exposições. Espaço para a guarda de embalagens e até área de quarentena para obras que chegarão ao museu também terão espaço, ainda sem data definida para ser concluído.
O acervo do museu, aliás, é um capítulo à parte na história que começa a se construir. Há quem diga que o acervo composto inicialmente por obras paranaenses não justifica a pompa do espaço (ou vice versa). ''Isso é uma grande besteira, as pessoas acham isso porque o Paraná sempre foi autofágico, engole a si mesmo e não valoriza as suas produções'', contesta Maria Cecília Noronha, responsável pela curadoria do acervo paranaense do NovoMuseu.
Por enquanto o acervo é uma fusão das obras do Museu de Arte Contemporânea (MAC), Museu de Arte do Paraná (MAP) e Banestado, com obras de artistas paranaenses como Miguel Bakum, Guido Viaro, Poty Lazarotto, entre outros. Parte desse acervo já foi encaminhada ao museu para integrar a mostra paranaense. Outra parte deve seguir para a reserva técnica do museu na próxima semana. ''Quem sabe agora, com essas obras expostas num grande museu essa mentalidade mude'', diz Maria Cecília.
Mas se o governo está prevendo transferir para a iniciativa privada a administração do museu, conforme apurou a Folha, um acervo bem mais completo teria que ser pensado, já que não existe no Brasil uma política de turismo cultural capaz de estimular o público a visitar (e pagar) para ver obras de artes de artistas ainda desconhecidos pela maioria.
Leia mais sobre o assunto na página 2.


