Não, o dilúvio de arrepios asiáticos requentados por Hollywood ainda não terminou. Mas quase. Está nos estertores, a julgar por este ''Imagens do Além'', a partir de hoje no circuito nacional (confira a programação de cinema na página 2). Produzido pelo pessoal que esteve por trás das versões norte-americanas de ''O Grito'' e ''O Chamado'', o novo-velho apelo é refilmagem de ''Shutter'', realizado no Japão em 2004, local de nascimento desta variante do gênero, o J-horror.
O curioso neste argumento, de resto muito ruinzinho, é que ele contraria a moda, vai contra a corrente sem no entanto fazer disto um trunfo de originalidade - o tema das ''auras fotografadas'' é velho como o século passado. Os títulos deste quase extinto modismo do horror asiático (além dos japoneses, sul-coreanos e tailandeses também se inscrevem nesta manufatura) fizeram da tecnologia eletrônica seu canal preferencial para estabelecer contato entre o além e o aquém (leia-se: nós aqui deste lado da trincheira). ''O Chamado'' rendeu tributo ao videotape, e o inédito ''Uma Chamada Perdida'' faz do celular um instrumento lá não muito confiável.
Agora, neste acima de tudo dispensável ''Shutter'', a assombração vem das fotografias, muitas fotografias, de qualquer câmera, uma Pentax, uma Polaroid, de qualquer marca que você queira sairá um fantasma. Durante a lua-de-mel no Japão, casal é assombrado por um yurei - aquele tradicional espírito japonês torturado, rosto pálido e cabelos negros. É claro que o espírito tem ligações com o passado de alguém, e a mulher passa a investigar a vida pregressa do marido - afinal, ele é mesmo um mau caráter.
O filme, que tem somente 85 minutos, mas é danado de lento para deflagrar seu primeiro susto, incorre novamente em habitual falta grave quando trata de lidar com almas penadas orientais. Invariavelmente o despreparo (nem digo falta de cultura, mas falta de informação básica mesmo) de quem faz a adaptação da história original, temperado pela ganância, transforma este personagem intangível em vazio emblema de horror de consumo imediato e descartável, retirando dele o significado transcendental - uma alma desiludida a vagar. Aquilo que Kioshi Kurosawa fez em ''Kairo'', de 2001: mostrar que todos os seres humanos vivem sozinhos, e permanecem sozinhos após a morte.
O filme, afinal, somente é bem sucedido num aspecto: é irrefutável exemplo de que as refilmagens transcontinentais do gênero devem parar. A implosão é evidente.(C.E.L.J.)

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