A imagem nossa de cada dia
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de abril de 2018
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

É sabido que, nos editoriais de moda e redes sociais de famosos, a beleza e sensualidade estampadas nas fotos são construídas por inúmeros mecanismos que vão desde maquiagens, iluminação e poses, roupas específicas, além de todos os recursos de efeitos visuais e tratamentos da imagem. Há uma discussão grande, inclusive, se este tipo de imagem seria ou não arte, ao mesmo tempo em que correntes afirmam que esta vertente reforça padrões de corpos, cores de pele, tipos de cabelo, reverberando uma realidade inatingível e artificial no comportamento da sociedade. Diversos estudos de entidades ligadas à saúde, inclusive, apontam que as mulheres, sobretudo em idade jovem, são as que mais sentem essa imposição velada, refletindo em diversos complexos e até mesmo distúrbios.
Recentemente, na onda contrária, uma legião de mulheres comuns e de corpos fora do padrão comercial estão sendo retratadas por fotógrafos que buscam mostrar a beleza e sensualidade que existe em todas. Neste movimento da fotografia, está o estilo "boudoir" palavra em francês que nomeava quartos de se vestir após o banho, uma espécie de ambiente totalmente feminino em alta e cada vez mais procurado. Este tipo de ensaio, em geral, visa mostrar a sensualidade por meio ou não da nudez, que, muitas vezes, está implícita. O objetivo tampouco é erótico e, nestes casos, como não existe a venda de um produto ou conceito, a imagem é real, sem retoques e valoriza os pequenos hábitos cotidianos.

Há diversos estilos de boudoir oferecidos e realizados. Alguns profissionais escolhem o tipo de perfil que querem retratar e, em sua grande maioria, também dão preferência para corpos padrões. Mas duas fotógrafas de Londrina têm se destacado por mostrar a beleza do corpo gordo, com cicatrizes, seios fartos, celulites aparentes, da pele negra, do cabelo crespo ou da cabeça raspada. "São poucos os que aceitam retratar a beleza das mulheres que não estão nesse perfil magro, alto, com seios empinados, aparência considerada feminina ou jovem. Defendo que, para fazer esse tipo de ensaio, não é preciso ter um biotipo específico, basta ser mulher e querer fazer", diz a fotógrafa Paula Zucoloto, que mantém o projeto "BeN - Baseado em Nude" desde 2015, disponível em suas redes sociais.
Uma curiosidade é que o projeto iniciou com autorretratos, em que ao se fotografar, Paula percebeu como sua relação com a imagem também mudou. Optou por expandir para outras mulheres, buscando retratar uma carga emocional com toque de sensualidade dos momentos supostamente banais. "Tento captar a essência de cada uma em um local de segurança e conforto que é a casa delas ou onde preferirem. Como não existe uma função comercial, caminho na direção de um corpo realmente humano e cheio de história de vida para ser mostrada. A partir desse momento, muitas conseguem enxergar beleza e sensualidade onde não sabiam", relata a fotógrafa, acrescentando que o nu é apenas um dos momentos de seu trabalho, podendo ou não fazer parte dele.

HOMENS E MULHERES
A fotógrafa Lírica Aragão também trabalha em Londrina com vários estilos, um deles, retratando o íntimo de mulheres e homens que não estão no padrão "vendável" de editoriais. Seu projeto "1103 Project", existente desde 2015 e disponível nas redes sociais, tem o objetivo de mostrar a beleza e sensualidade de pessoas que expõem suas fragilidades, medos e que, a partir da experiência, descubram sua força. "Procuro captar o que cada um tem de especial, mas, muitas vezes, não se dá conta. Depois de se verem nas fotos - nas quais não uso nenhum tipo de tratamento, apenas trabalho com a iluminação - percebem como são belas. Passam a gostar de partes do corpo que rejeitavam, expressões que não se davam conta", pontua.
Tudo acontece em ambiente seguro, principalmente na casa das pessoas, para que ocorra da maneira mais natural e real possível. "São momentos que realmente acontecem no dia a dia deles, desde um café, um banho em que, aos poucos, a pessoa pode ou não ir se despindo das roupas. Porém, mais que isso, vai se despindo das próprias inseguranças. É um trabalho para quem quer redescobrir o corpo e o espaço através da fotografia". O nome do projeto faz referência à primeira sessão que realizou, do número do apartamento de uma amiga que havia saído de um relacionamento abusivo e sofria de transtorno alimentar. "A experiência para ela foi marcante e transformadora. E, para mim, mais ainda. Percebi que mais pessoas precisavam passar por esse tipo de empoderamento".

Estudante rompeu a fronteira dos padrões
A estudante Carolina Figueiredo Silva, de 23 anos, conta que a ideia de fazer um ensaio sensual já era bem antiga, só que até realizá-las foi um processo longo. "Precisou haver um desprendimento de quase tudo que ainda me sufocava como mulher nessa sociedade de padrões de beleza tão enraizados." Após conhecer o trabalho da fotógrafa Paula Zucoloto e identificando-se com o projeto BeN, se deu a chance de fazer parte do grupo de mulheres que tiveram sua história revelada, bem como seu íntimo, suas marcas e lutas retratadas. "Durante a sessão, ela me cativou, me provocou risos e me tirou histórias emocionantes que até então estavam enterradas no meu passado e, naquele momento, senti que precisava jogá-las fora".
Para ela, ver o próprio corpo de diversos ângulos - alguns deles antes demonizados por ela mesma -, a ajudaram a ver uma Carolina diferente. "Uma Carolina que eu fingia não existir quando a dobrinha se mostrava, ou o seio descia do sutiã, quando a calcinha enrolava. Foi, realmente, uma quebra dos meus próprios padrões", revela. O processo, que ela chama de empoderamento, se intensificou quando viu as fotos. "Me reconheci naquele corpo, com aquela sensualidade, aquele rosto. Era tudo meu e era lindo. Tudo mudou depois deste ensaio: me valorizo mais, me enxergo melhor e recomendo esse exercício de se ver através das lentes de alguém sensível", diz.

ACEITAÇÃO
O BIM - Body Image Movement (Movimento da Imagem Corporal, em português) é um movimento criado pela australiana Taryn Brumfitt, fundado na crença de que o corpo não é um ornamento, mas o veículo para seus sonhos. O movimento, portanto acredita que todos têm o direito de amar e abraçar seu corpo, independentemente da forma, tamanho, etnia ou habilidade. Ao viajar pelo mundo, o BIM trabalha para acabar com a aversão ao corpo e espalhar a mensagem de amor por ele. Por meio do vídeo intitulado "Embrace You", ela defende a missão de acabar com a epidemia global que odeia o corpo e mostra os passos que usou para abraçar seu próprio corpo que podem ser feito por outras mulheres. "Não perca mais um único dia da sua vida em guerra com o seu corpo", diz o vídeo.


