A ilha da tranquilidade
Na chamada Costa do Dendê, a 150 quilômetros de Salvador, Boipeba não é apenas praia. É claro que, sendo uma ilha, seus maiores atrativos só poderiam estar no litoral. Até seu nome vem do mar, da tartaruga marinha ''cobra chata'', significado de ''mboi pewa'' em tupi. Mas seu interior guarda passeios curtos que revelam detalhes do dia-a-dia da comunidade. Comece pela Vila de Boipeba, ou melhor, pela Velha Boipeba. Ela é um dos quatro povoados que formam a ilha, que, por sua vez, é uma das 30 do arquipélago de Tinharé.
A praça central é um campo de futebol, sempre ocupado por animados jogadores. Nas portas das casas, vizinhos jogam conversa fora ou crianças brincam. Para se ter idéia do grau de tranquilidade do lugar basta dizer que não há delegacia em Boipeba. Em alguns dias, rodas de capoeira animam as noites.
MJá que está no centro aproveite para conhecer a Igreja do Divino Espírito Santo, que fica no alto de uma ladeira, construída no século 17. Só reze para não se deparar com um urubu em cima da cruz. Conta a lenda que quando a ave preta pousa lá é sinal de morte certa. Para saber quem será a próxima vítima repare em qual direção o urubu está olhando.
Deixe as lendas de lado e continue o passeio. Perguntando pela vila é possível ir sem guias a dois lugares que, com certeza, deveriam virar pontos turísticos: o Rodão de Dendê e a Casa de Farinha, que mostram uma técnica passada de geração para geração. Se tiver sorte, você ainda pega os nativos trabalhando. No primeiro, pode-se observar o processo de fabricação caseira do azeite de dendê e, no segundo, o da farinha de mandioca. Dá até para comer biju feito na hora. Fazer parte desses ambientes é sentir-se um pouco filho de Boipeba.
Quem curtir um pouco mais de aventura ou uma caminhada puxada terá de contratar um guia para andar pelas áreas por onde passam os Rios Serrão Grande e Serrão Pequeno. Cruzando a ilha por dentro, você irá passar por mata fechada, atravessar rios e escutar as histórias locais. Alguns quilômetros depois chegará a Monte Alegre, um outro povoado da ilha, totalmente diferente dos outros à beira-mar. A vista lá é de campo, com plantações de mandioca, milho, banana, abacaxi. A comunidade vive mais isolada. ''Em Monte Alegre todo mundo é parente'', resume o guia Marcos. No meio do caminho delicie-se com a infinidade de exóticas frutinhas locais. Caju, manga, mangaba e muitas outras.
Seja qual for o passeio, nada impede que qualquer um chegue a alguns dos outeiros da vila na hora certa para o pôr-do-sol. A escolha é sua: do alto da Caixa D'Água ou dos Namorados, vêem-se as praias e uma parte do vilarejo. Já do mirante ''Quebra C...'' (formalmente chamado de Alto das Pombas, ele leva esse ''curioso'' nome por causa de uma duna de areia onde as crianças costumam descer sentadas), a vista é de uma imensa faixa verde cortada por vários riozinhos que desembocam no mar. Atrás de você, a Velha Boipeba segue seu ritmo sempre tranquilo.
Se houvesse uma premiação para o passeio mais peculiar da Ilha de Boipeba, sem dúvida ganharia o de canoa pelos igarapés. Você pode até argumentar que andar de canoa não é nenhuma novidade. Mas esse é diferente. Navega-se por dentro dos manguezais. A pequena canoa de madeira é levada pelas águas e os tripulantes têm de estar atentos para abaixar a cabeça antes de levar o golpe de um galho. Isso não é nada frente à presença estranha dos anfitriões do local: os aratus, caranguejo típico da região.
A sensação é de que eles vão pular em você de tão perto que estão. Inofensivos, o que arrepia é o barulho que fazem. Como o silêncio é completo, escuta-se os mínimos movimentos dos crustáceos pelas raízes do mangue. E pela intensidade do ruído é possível ter uma idéia da quantidade de aratus que andam na região. Passa-se mais de 30 minutos em meio a esse emaranhado de galhos e aratus até sair do manguezal. Aí é só alegria e tranquilidade. Na volta, feita a céu aberto, impera uma paz que você não sentirá de novo tão cedo quando voltar de viagem.





