Livro lançado pela Cosac & Naify Editores traça um panorama da obra do arquiteto curitibano Vilanova Artigas. Entre os projetos, estão alguns realizados em Londrina
‘‘A arquitetura moderna, tal como a conhecemos, é uma arma de opressão, arma da classe dominante, uma arma de opressores contra oprimidos.’’ A frase, pronunciada pelo arquiteto curitibano Vilanova Artigas, teve uma forte repercussão na época em que foi dita, em 1952. Sua conclusão era clara: ‘‘a obra dos arquitetos exprime ideologicamente o pensamento da classe dominante.’’
O objetivo dele era definir sua proposta estética em comunhão com uma postura social e ideológica. Sua crítica era direcionada principalmente aos mestres Le Corbusier e Frank Lloyd Wright, contra o argumento de que a arquitetura moderna era ‘‘livre e apolítica’’.
Vilanova Artigas (1915 - 1985) foi o primeiro arquiteto brasileiro a sugerir uma perspectiva mais abrangente da idéia de construções urbanas. Dentro de uma visão marxista, teve uma grande preocupação social em seu trabalho. Admirador e ao mesmo tempo contestador das vanguardas européias e norte-americanas, criou obras que se tornaram referências dentro da arquitetura brasileira ao lado de nomes como Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha.
A Cosac & Naify Edições, dentro da coleção Espaços da Arte Brasileira, acaba de publicar ‘‘Vilanova Artigas’’, livro que oferece um panorama completo da obra e idéias do arquiteto. O volume traz fotografias e plantas de seus principais projetos, além de um ensaio escrito pelo professor João Masao Kamita.
Criador de edificações como o Estádio do Morumbi (São Paulo Futebol Clube), João Batista Vilanova Artigas nasceu em Curitiba em junho de 1915. Com 17 anos de idade ingressou na Escola Federal de Engenharia do Paraná. Como não havia o ensino de arquitetura no curso regular, mudou-se para São Paulo para estudar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Na capital paulista, enquanto concluía a universidade passou a frequentar o curso de desenho artístico da Escola de Belas Artes. Nessa época, em 1936, entrou em contato com o chamado grupo Santa Helena, do qual faziam parte artista como Alfredo Volpi, Mario Zanini, Alfredo Rullo Rizzoti, Fulvio Pennacchi, Aldo Bonadei, Clóvis Graciano, Francisco Rebolo e Manuel Martins.
Após formar-se engenheiro-arquiteto, iniciou uma carreira profissional em vários campos de atuação. Em 1945 filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro dividindo seu tempo em discussões políticas e estéticas. Desenvolveu a grande maioria de seu projetos na cidade de São Paulo, no interior do estado e no norte do Paraná. No início da década de 50 projetou várias obras em Londrina, uma cidade que florescia entre mares de café.
‘‘Vilanova Artigas’’ oferece destaque a algumas criações do arquiteto construídas em Londrina entre os anos de 1950 e 1952: a Rodoviária (atual Museu de Arte), a Casa da Criança (atual Secretaria Municipal de Cultura) e o complexo do Cine-Teatro Ouro Verde com o Edífico Autolon. Os dois primeiros projetos merecem maiores destaques por serem consideradas obras arquitetônicas de referência dentro da moderna arte brasileira.
Infelizmente o livro comete dois pequenos erros. Registra que a Casa da Criança hoje funciona como biblioteca, o que não ocorre há duas décadas, e omite que a Rodoviária atualmente abriga, embora praticamente inativo, o Museu de Arte Moderna. Detalhes que talvez não passem despercebidos apenas para quem reside na cidade.
A obra publicada pela Cosac & Naify Edições possui uma instigante vitalidade e, ao mesmo tempo, anuncia uma onda de tristeza. Pelo menos no que diz respeito às construções desenhadas por Vilanova Artigas para a cidade de Londrina. Tristeza por elas sofrerem quatro ações básicas: o abandono, a corrosão do tempo, modificações através de gambiarras indecentes e/ou a demolição.
A então Casa da Criança, por exemplo, nunca passou por uma restauração. Mas isso é pouco perto das alterações que sucessivas gestões de secretários de cultura fizeram com o prédio. A mais gritante fica por conta do terraço do prédio que não existe mais – foi simples e absurdamente coberto com telhas de fibroamianto. Certamente a intenção era ‘‘ganhar espaço’’, mas o resultado estético é visivelmente sanguinário.
A Rodoviária de Londrina, considerada uma das obras mais genuínas de Artigas, foi devidamente restaurada e preservada. Mas pagou um preço alto: foi obrigada a ficar, literalmente, atrás de grades. Algo como uma violência estética contra a violência urbana. Anos atrás, os próprios responsáveis pela manutenção do local anunciaram a obscena proposta de fechar os arcos com vidros para ‘‘ganhar espaço’’. Um verdadeiro absurdo provindo de pessoas que justamente zelam pelo patrimônio histórico.
Em seu ensaio, João Masao Kamita menciona que um dos melhores exemplos de como Artigas trabalhava a relação de espaço interno e externo na urbanização de grandes centros está em duas edificações de Londrina, o Cine-Teatro Ouro Verde (que quase foi comprado por uma igreja evangélica) e o Edifício Autolon: ‘‘No intervalo entre as duas construções abre-se um jardim que se põe em continuidade com a praça em frente. Consoante com a crença numa arquitetura participante da construção do urbano, Artigas teria alcançado nessas obras uma justa articulação entre a responsabilidade social da arquitetura e as regras autônomas de sua disciplina.’’ Em outras palavras, seria a definição mais exata da arquitetura não com um objeto isolado da cidade, mas uma parte integrante do todo.
O fato é que esse jardim exemplar não mais existe. Ele foi recentemente demolido para dar lugar a uma loja de roupas. Esses casos parecem dizer que a cidade não tolera os chamados ‘‘espaços vazios’’, e que tudo é pensado de maneira irresponsável para ‘‘ganhar espaço’’ a qualquer preço.
Diante deste quadro, a impressão que a leitura de ‘‘Villanova Artigas’’ deixa é que o leitor está diante de coisa que não existem mais. Coisas do passado que não resistiram à fúria do tempo urbano, à velocidade dos interesses pessoais e comerciais. A mesma sensação que uma criança tem ao conhecer uma mata nativa – ou uma árvore de peroba – através de uma amarelada fotografia.
• ‘‘Vilanova Artigas’’ de João Masao Kamita, Cosac & Naify Edições (telefone 11-255-8808), coordenação de Rodrigo Naves, edição ilustrada, 127 páginas, R$ 41,00.

mockup