Quando faleceu em 22 de maio de 2018, o escritor norte-americano Philip Roth deixou recomendações incisivas de que não queria, em hipótese nenhuma, cerimônias religiosas em seu funeral. Muito menos inscrições religiosas em sua sepultura.
Ironicamente, dias após o enterro, surgiu em sua lápide uma pedra com inscrições divinas da tradição judaica. Na sequência apareceu outra pedra. Depois uma terceira. Uma cena que poderia muito bem estar presente nas páginas de seus mais de 30 livros de ficção.

Philip Roth: cultura contemporânea norte-americana é tema recorrente de seus livros
Philip Roth: cultura contemporânea norte-americana é tema recorrente de seus livros | Foto: Divulgação



A editora Companhia das Letras está lançando "A América de Philip Roth", caixa que traz quatro dos principais romances do escritor: "Pastoral Americana", "Casei Com um Comunista", "A Marca Humana" e "Complô Contra a América". São obras que trazem as principais características da literatura do escritor como cronista da sociedade americana do século 20. Mais especificamente, cronista da identidade americana.

Dos quatro romances que integram a caixa, três deles são narrados pelo romancista Nathan Zuckerman, personagem ficcional criado por Roth como alter ego. Apenas em "Complô Contra a América" a narrativa não está na voz de Nathan.
Em "Complô Contra a América", Philip Roth imagina o famoso herói nacional Charles Lindbergh - que realizou em 1927 o primeiro voo solitário sem escala entre a América e a Europa - eleito presidente dos Estados Unidos. Ao assumir o cargo, Lindbergh se revela um ardoroso defensor da Alemanha nazista e passa a propagar que os Estados Unidos devem se defender da "diluição das raças estrangeiras".

"Pastoral Americana" traz a história de Seymour Levov, um personagem que o próprio Roth definiu como "um sujeito lutando para se manter em pé um paraíso construído de enganos". Trata-se de um senhor que pretende passar seu legado moral à terceira geração da família sem nenhum resultado. Apegado a crenças que não fazem mais sentido, sua obstinação se torna completamente patética.

Em "A Marca Humana" o professor universitário Coleman Silk se vê obrigado pedir exoneração de seu trabalho ao ser acusado de racismo dentro da sala de aula. Sem entender sua ofensa, passa também a ser acusado de abuso sexual. Tentando lutar contra as acusações, cada vez mais é empurrado para a lama. O que ninguém sabe é que Coleman oculta uma origem racial que o acompanha grudado em seu corpo de maneira invisível.

"Casei Com um Comunista", romance que conclui a caixa, traz a história de Ira Ringold, um simples operário que se torna um famoso ator de raardionovelas. Após se separar da esposa, sua vida vira de ponta-cabeça quando a ex-mulher publica um livro, em plena época do macartismo, revelando suas tendências e ações comunistas. Abalado com a delação e a traição numa época de febre anticomunismo, Ira abraça a vingança como barco salva vida.
Lado a lado, os romances que compõem "A América de Philip Roth" transparecem um tema recorrente na literatura do escritor: uma hora ou outra, numa situação ou outra, o mundo invade o ser humano sem pedir licença ou favores. Apenas invade. Destrói certezas, confunde definições, inverte lógicas, tumultua princípios, anula controles, desestabiliza normalidades, etc. Enfim, retira tudo da zona de conforto. E até mesmo depois de tudo morto e devidamente enterrado, pode surgir uma nova lápide na velha sepultura.

Imagem ilustrativa da imagem A identidade americana
| Foto: Divulgação


Serviço:
"A América de Philip Roth"
Autor - Philip Roth
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Paulo Henriques Britto e Rubens Figueiredo
Páginas - 1.416
Quanto - R$ 179,90

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