Qualquer pretensão de objetividade, tanto no cinema como na vida, somente pode ser entendida como cortina de fumaça para satisfazer uma determinada e caprichosa clientela. Ou então justificar o injustificável. Não poderia ser diferente, portanto, num fragmento da biografia de um personagem tão universalmente conhecido, admirado e contestado com paixão simétrica como Ernesto Che Guevara. Ou como judiciosamente sentenciou Ortega Y Gasset, ''o homem é o homem e suas circunstâncias'', o que justifica que o revolucionário tenha saído das páginas da História para eternizar a lenda.
''Che - O Argentino'', primeiro de dois capítulos em lançamento hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2), enfoca sua participação na revolta cubana liderada por Fidel Castro no final dos anos 1950 para derrubar o ditador Fulgêncio Batista, logo nos primórdios da hoje agonizante Revolução, a partir daquela geografia física e política sintomaticamente chamada de Sierra Maestra, a serra perfeita, a serra-mestra. A serra utópica.
O afresco construído por Steven Soderbergh se completa com a segunda e última parte, ''Che - Guerrilha'', destinada a reconstituir a frustrada experiência guerrilheira do personagem na Bolívia até sua prisão e execução, em 1967, na localidade de La Higuera. A Europa Filmes, distribuidora das duas partes no Brasil, informou ontem que ''ainda não há uma data para o lançamento da segunda parte, mas provavelmente será no final deste ano''. Nenhuma surpresa, portanto, se o filme fizer diretamente o percurso até as locadoras, sem escala nas salas.
O que é este filme de Soderbergh? É imparcial na abordagem? É mistificador, reforça o mito ou o desmistifica, saindo em busca do Che contraditório em sua dimensão de ser humano falível que abrigava também o idealista? O que de fato conta aqui são as intenções. A primeira: o personagem-título tinha que se parecer fisicamente, de maneira esmagadora, com seu modelo biografado - e isto é óbvio, explode na tela (muito mais na segunda parte, diga-se) graças à portentosa interpretação de Benicio del Toro, produtor e o verdadeiro patrono do projeto.
Este é um ponto, importante sem dúvida, já que a imortalidade do Che como personagem não se deve na vida real somente a seus ideais, mas também à sua imagem. Louve-se ainda a segunda intenção: recriar a figura mítica do revolucionário, sem no entanto excluir o retrato do ser humano por trás do ícone e sem prescindir de sua intimidade, buscando sua natureza mais genuína.
Soderbergh elegeu para este projeto a via da contenção. O que se observa é uma espécie de colagem impressionista na qual se acomodam confortavelmente diferentes texturas e formatos, do hipnótico preto e branco à cor, das imagens com aparência documental (com entrevistas e discursos do Che) à recriação ficcional da vitoriosa campanha armada rumo à La Habana.
Sem concessões ao tentador virtuosismo vazio que poderia atentar contra a
narrativa, Soderbergh mostra pulso forte e equilíbrio ao retratar o herói contemporâneo transformado pelo mercado consumista em grife mais ou menos abstrata, moldado graficamente em franquia, ícone ou símbolo de rebeldia, anseios de justiça e de liberdade.
O final do filme é emblemático, para usar com propriedade uma palavra que ultimamente se tornou desgastada pelo uso indevido e/ou modista. E serve como introdução reflexiva para o se verá na segunda parte, ''Guerrilha''. Numa estrada, o Che obriga seus homens a voltar à cidade de onde vinham e devolver o carro que roubaram. Este é o indício do que está por vir, é traço forte de uma personalidade inteligente, heroica, valente, carismática e honesta já ameaçada por uma traição futura. É o prólogo, digamos, da encruzilhada entre a revolução cubana vencedora e a outra, latino-americana derrotada. É, por outro lado, um lamento simbólico pelo fracasso do ideal revolucionário, enterrado pela corrupção político-partidária.

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