Nos salões de hoje em dia, que nem mais se chamam salões, mas danceterias, o mais comum é encontrar homens e mulheres a exibir coreografias próprias em danças solitárias. Lembram, assim, o início de tudo, na pré-história, quando o homem dançava ao som de instrumentos improvisados de percussão ou apenas seguindo a batida dos pés sobre o chão e o canto monocórdio de vozes unidas num único tom. A natureza, cheia de mistérios, assustava e os homens dançando, clamavam pela ajuda dos deuses. Dançando também buscavam trazer boa sorte para as caçadas e fortalecer a coragem para as guerras. Mas a inspiração principal para essa forma coletiva de dançar separado era ontem, tal como agora, a de exorcizar medos e males.
O corpo fala, afirmam os especialistas, mesmo quando está tentando se mostrar impassível. Quando dança, no entanto, expressa-se na linguagem fascinante da alma, que ascende aos gestos e desce à ponta dos pés por meio da música. O homem demorou a descobrir que o que era bom sozinho, podia se tornar bem melhor acompanhado. As primeiras danças de casais de que se tem notícia, como a ''pavane'', por exemplo, surgiram no século XIV. Contudo, foi no decorrer dos séculos XV e XVI, época da Renascença, quando as artes reviveram, depois de um longo período de hibernação na Idade Média, que as chamadas ''danças sociais'' começaram a despontar nos salões nobres da Itália e da França, servindo como símbolo de status e poder. Quanto mais rico e poderoso era o nobre, mais luxuosas e longas, podendo durar até vários dias, eram suas festas.
A dança de salão chegou ao século XVII ainda como um diferencial da nobreza, especialmente na França, onde o ''minueto'' reinou por 150 anos. Por ser muito requintado e galante, exigia dos dançarinos, que não se juntavam, mas apenas se aproximavam, passinhos miúdos - 30 centímetros de abertura, no máximo -, inúmeras saudações e reverências cerimoniosas, além de elegantes deslocamentos de corpo para frente, para trás e para os lados. Os olhos, já que os corpos teimavam em se manter discretamente distantes, encarregavam-se de passar as mensagens de sedução, que o calor das mãos, ao se encontrarem de quando em quando, referendava.
O arrebatamento do corpo a corpo só começou a ser experimentado com a valsa, que escandalizou a sociedade recatada do século XVII, levando a dança, em volteios intermináveis pelos séculos seguintes, à descoberta de outros inúmeros e variados estilos, que fazem a delícia dos casais modernos. A valsa, no entanto, parece ter nascido para ser eterna, unindo casais - mesmo aqueles que gostam de dançar separados - em festas de debutantes, em formaturas e casamentos. Entre as danças de salão e como uma síntese de todas elas, tornou-se aquela sempre a lembrar que nada mais fascinante do que a cumplicidade entre um homem e uma mulher, quando usufruem a vida no mesmo compasso.
(A.S.R.)

mockup