A humanidade do mundo natural
A humanidade do mundo natural
Livro de Natalie Angier reúne artigos científicos publicados no New York Times
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
No mundos dos homens, onde a produtividade é um totem impermeável, a preguiça é totalmente execrável. A própria sobrevivência, ou a riqueza, está relacionada à superação desta força que coloca corpos e mentes na posição horizontal. No mundo natural a coisa é bem diferente, a maioria dos seres passa a maior parte da vida sem fazer nada. E este não fazer nada, geralmente chamado de preguiça, é justamente o fator que mantém a sobrevivência destes seres.
Os beija-flores, por exemplo, conhecidos por sua eletricidade, passam 80 por cento do dia descansando ou dormindo longe dos olhos humanos. Algumas espécies de macacos chegam a ficar três quartos do dia parados, encostados num galho - isso fora as doze hora de sono noturno. Depois de almoçar, o leão permanece deitado por doze horas sem mexer uma única orelha. As abelhas e formigas, geralmente chamadas de operárias, dedicam apenas 20 por cento do dia na tarefa de coletar néctar ou conseguir alimento, o resto do tempo permanecem paradas sem fazer nada.
A preguiça do mundo natural possui vários objetivos. Alguns animais ficam parados para conservar preciosas calorias, outros para facilitar o digestão, outros ainda para evitar serem vistos pelos predadores, outros para se manterem frescos ou aquecidos. A preguiça é uma questão de sobrevivência.
Esta curiosidade e muitas outras, todas estudadas pela ciência, estão no livro A Beleza da Fera - Novas formas de ver a natureza da vida da jornalista norte-americana Natalie Angier. Lançado pela Editora Rocco, A Beleza da Fera (The Beauty of the Beastly) reúne 41 artigos publicados no seção de ciências do New York Times nos últimos anos. Escrevendo de forma simples e humorada, Natalie Angier realiza uma ponte entre as intrincadas descobertas científicas e o mundo comum dos leitores.
Os temas abordados pela autora são amplos e variados. Da vida sexual dos golfinhos até as artimanhas dos código genético (DNA). Do processo de morte das células até o cotidiano das baratas. Do infanticídio praticado pelas hienas até as estratégias das orquídeas para se polinizarem. Da batalha de núpcias das cascavéis até as doenças que influenciaram a obra de Van Gogh e Monet.
Das novas teorias do sentido da menstruação feminina até como alguns parasitas determinam a reprodução dos pássaros. Do ritual do fêmea do escorpião em devorar seu marido na noite de núpcias até a anatomia da alegria.
O enfoque maior do livro está em como a evolução das espécies está latente nos mínimos detalhes do comportamento dos seres. Os rituais de acasalamento, os fatores que levam as fêmeas a escolherem machos de determinadas característica para a reprodução, sempre aponta para a perpetuação da espécie. No século passado, Charles Darwin - criador da teoria evolucionista - já apontava o poder oculto das fêmeas: elas podem exercer pressão sobre a evolução de suas espécies através de suas decisões de acasalamento.
Em seus textos, Natalie Angier utiliza uma abordagem antropomórfica da natureza. Segue a recente tendência de alguns cientistas, das mais variadas áreas, em perceber - ou interpretar - faculdades típicas dos seres humanos em outros seres, seja uma baleia ou uma célula. Esta abordagem vem sendo chamada de neo-antropomorfismo.
Novas pesquisas estão revelando detalhes, até então desconhecidos, da vida das mais variadas espécies, e estas descobertas revelam atitudes quase humanas em seres como ratos e golfinhos. Resultado direto: uma pessoa pode se identificar, como uma espécie de espelho, com atitudes outros habitante do planeta.
Angier antropomorfiza as espécies numa posição de humildade: Tomo por hipótese que as espécies não humanas têm personalidade própria, objetivos, emoções, consciência e mesmo sonhos e desejos. Faço isso em intenção da minha narrativa e porque a continuidade da vida numa escala genética e morfológica revela um grau considerável de fraternidade entre as criaturas da Terra.
Tudo leva a crer que o homem tem muito mais a aprender com outras espécies do que outras espécies com o homem.
A Beleza da Fera - Novas formas de ver a natureza da vida, de Natalie Angier, Editora Rocco, coleção Ciência Atual, tradução de Rui Cerqueira e Erika Hingst, 264 páginas, R$ 32,00.





