A humanidade desfigurada pelo poder
A humanidade desfigurada pelo poder
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
DivulgaçãoMacbeth: O mal desenha, fio por fio, o perfil da históriaO sentido lúdico do teatro de bonecos que alegra crianças em tardes de sol é sumariamente encaixotado e enviado para a parte mais deserta do Pólo Norte no espetáculo Macbeth! da companhia holandesa Stuffed Puppet Theatre. Fechado com correntes, travas e cadeados, o lúdico passa a repousar sob o gelo atormentado pelos gemidos dos ventos noturnos.
Em sua última apresentação hoje no Festival Internacional de Londrina 98, a companhia holandesa Stuffed Puppet Theatre encena a tragédia Macbeth do dramaturgo William Shakespeare (1564 - 1616) com bonecos de dimensões humanas. Sozinho no palco, sem nenhum cenário, o ator Neville Tranter interpreta o próprio Macbeth e manipula todo o resto do elenco dando vida e personalidade ao que antes parecia amorfo. Centrado na manipulação de movimentos de cabeça e articulação de boca dos bonecos, a versão da companhia está centrada no texto (em inglês) e no trabalho impecável do único ser humano em cena, Neville Tranter.
Tal interpretação, no decorrer do espetáculo, chega a pondo de unir homem e bonecos sem contradição. Bonecos tornam-se humanos e o humano torna-se boneco em pé de igualdade. A magia do teatro é instalada em sua essência. Macbeth! torna-se um dos fortes concorrentes a melhor espetáculo do Filo 98.
O personagem principal, Macbeth, seduzido pelo desejo de poder, é um escravo de sua determinação em ser soberano. Os meios são desprezados, tudo justifica os fins. Mentiras, conspirações e assassinatos são o prato principal. Quando atinge seu objetivo, no momento em que poderia libertar-se de sua escravidão pela sede de poder, torna-se escravo do medo paranóico de ser destronado. Mais violência, atrocidades e coisas do ramo. O mal desenha, fio por fio, o perfil da história.
A tragédia de Macbeth! é pesada. O espetáculo encenado por Neville Tranter é tenso do início ao fim. Uma tensão opressiva correspondente à obsessão de Macbeth em conquistar o poder e a paranóia em se ver destronado a qualquer momento, a cada sombra em movimento. Não há espaço vago para o riso. Mesmo assim, a platéia acuada procura a ilusão de mínimas brechas para expressar pequenos risos como tentativa de relaxamento.
As palavras de Macbeth revelam que o grande perigo está em nos acostumarmos com os horrores cometidos pelos homens a pondo de nos divertirmos com eles: Quase esquecera o gosto de ter medo. / Outrora os meus sentidos gelariam / Com um guincho à noite; e a minha cabeleira / Com um relato de horror ficava de em pé, / Como se viva; estou farto de horrores: / O pavor, íntimo do meu pensar, / Já nem me assusta.
Trata-se de um espetáculo adulto, sendo aconselhável deixar as crianças em casa, sob os cobertores, viajando pelo mundo onírico.





