O status de protagonista nunca encheu os olhos de Camila Pitanga. Mas ela não esconde o ''frisson'' que sente ao ver suas cenas na pele da heroína Rose de ''Cama de Gato''. Aos 32 anos, mais da metade deles como atriz, Camila não sabe dizer se a oportunidade veio na hora certa. Mas reconhece que a experiência acumulada ao longo de oito novelas foi crucial para se sentir segura. ''A verdade é que hoje já tenho um certo estofo. Mas, para mim, o que marca uma protagonista não é o tamanho do papel, mas sua responsabilidade no projeto'', opina ela, que se divide entre a novela de Duca Rachid e Thelma Guedes e a apresentação do programa mensal ''Som Brasil''.
Em seu último trabalho em novela, como a prostituta Bebel de ''Paraíso Tropical'', Camila aparecia sempre cheia de acessórios e com muitos decotes e cores. Agora, na pele de uma mulher de origem humilde e mãe de quatro filhos, o figurino menos chamativo é um dos trunfos na sua composição.
Você ficou muito marcada pela espalhafatosa Bebel e voltou ao ar na pele de uma faxineira. Essa inversão facilitou a construção?
Não sei se é uma questão de facilitar, mas certamente foi proveitosa. Ainda mais nesse momento em que vivemos, que valoriza tanto o culto à vaidade, à beleza. A questão ali é a valorização da beleza da alma da Rose. Ser uma personagem sensível, generosa, sempre disponível para o outro.
Você teve sua primeira filha no ano passado. Ser mãe ajuda você na hora de interpretar a Rose?
Todo mundo diz que a maternidade abre a sensibilidade da mulher. Mas é difícil falar sobre isso porque nem acho que tenha o distanciamento para dizer, agora, qual é a diferença. Deve haver sim, mas eu estaria inventando se dissesse que já sei qual é.
Você estreou em 1993 e só em 2009 ganhou o posto de protagonista em uma novela. Veio na hora certa?
Não sei. O que sempre espero é poder trabalhar direito. Venho de vários papéis que ganharam certo peso ao longo da história. Nunca tive um papel que sumisse numa novela, que ficasse apagado. E nem sempre as mocinhas são mais interessantes. Acho que hora boa é a hora em que acontece.
Pela primeira vez na história da tevê brasileira, duas novelas têm protagonistas negras no ar. Como você analisa isso?
Acho que estamos em uma época histórica na tevê. O que estamos vendo é uma flexibilização dos espaços, um retrato mais próximo da realidade, já que somos uma sociedade de misturas. E isso traz benefícios para a população brasileira. Fico lisonjeada por participar disso.
Que tipo de laboratório você fez para interpretar uma faxineira?
Fui na IBM, uma empresa consolidada. E fiz questão de ver tudo desde o início. Cheguei às 5h40 para ver a rotina. Isso é o que mais adoro no meu trabalho: conhecer outras realidades. Muitas abriram o verbo, falaram tudo sobre questões profissionais e pessoais. É bom olhar de fora, num lugar onde você não conhece ninguém.
Na história, a Rose dirige uma Kombi. Foi difícil se acostumar ao carro nas primeiras cenas?
Não tem mistério. É gostoso dirigir Kombi! É mais barulhenta, mas eu ando na boa. Você tem mais visibilidade do que nos outros carros. Mas é chato para estacionar.
Assim como a Bebel, a Rose tem alguns traços de comédia. Você se sente à vontade nesse gênero?
Adoro comédia. Acho que é um motor de vida. Quanto mais ingredientes cômicos a história puder ter, para mim é melhor.
Você diz que existem muitas Roses por aí. Mas você se identifica com alguma característica dela?
Eu me identifico muito com a Rose. Sempre trabalhei e desde muito nova. Esse repertório de luta, de sobrevivência, está muito presente na minha história. Minha avó era lavadeira e criou com dignidade os filhos em uma época que era muito mais difícil se manter sendo uma mulher sozinha. Tudo que eu conquistei foi pelo esforço do meu trabalho. Graças a Deus, tenho tido sorte na vida, boas oportunidades. Mas não espero as coisas acontecerem, batalho muito. Se fosse preciso, venderia sanduíche na praia para garantir o conforto da minha família.

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