A hora e a vez dos pequenos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de janeiro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Matéria de Ano Novo do The New York Times não deixa dúvidas: a única certeza sobre quem vai ganhar o Oscar de melhor filme é que na noite de 24 de março, inaugurando o novo auditório Kodak em Los Angeles, uma produção vai receber a estatueta de melhor filme. Não que a afirmação seja anedota de gosto duvidoso. O que ela de fato define é a situação absolutamente incerta, para a grande maioria dos analistas americanos especializados, da lista com os cinco finalistas. Se há dois anos Beleza Americana despontava por antecipação rumo ao pódio, e se ano passado Gladiador não deixava muitas dúvidas meses antes da festa, em 2002 está tudo difícil, com alguns títulos surgindo com alguma força somente nesses últimos dias - O Senhor dos Anéis, Gosford Park, In the Bedroom, A Beautiful Mind, Black Hawk Down.
À exceção de O Senhor dos Anéis, que se não se inclui no chamado cinema adulto também não se deixa ver facilmente por menores de 12, todos os outros títulos são, digamos, para maiores. Esta dificuldade de listar produções adultas premiáveis vem bem a propósito de um ano fértil para o lazer da criançada. A prova é que, enquanto os membros da Academia se contorcem para eleger seus preferidos e honrar compromissos com os grandes estúdios, outra parcela desta mesma comunidade cinematográfica já decidiu: este ano, nada menos que oito produções vão concorrer a um Oscar específico na recém-criada categoria de melhor filme de animação, que vai vigorar todos os anos em que houver oito ou mais filmes animados de qualidade. Mais do que reconhecer a febril produção Disney-Pixar ou DreamWorks nos últimos anos, o prêmio vai para o talento de quem está, acima de tudo, ajudando as crianças a crescer. Em todos os sentidos.
É só passar os olhos na programação para sentir o peso das atrações infanto-juvenis. Depois, se ainda não levou filhos, amigos dos filhos, dependentes e agregados, é hora de enfrentar filas, do ingresso e das guloseimas, e relaxar em nome da pacificação. Acredite, a recompensa virá com certeza - até Xuxa e os Duendes merece uma chance, apesar da estudada e tola pose de mensageira a qualquer custo. Já apresentando os primeiros sinais de esgotamento, Harry Potter - a versão dublada é execrável - diverte ilustrando com fidelidade o livro da bela J.K. Rowling. O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, com suas três horas alucinantes de espetáculo puro, merece entre outros o singelo rótulo de aventura juvenil, mas oferece problema de longinqua solução: os doze meses que separam esta trasbordante aventura da segunda parte, e mais doze para saber se o Anel será ou não destruído.
E finalmente o mais maroto, sensível e delicado, e igualmente hilariante Monstros S.A., uma fábrica de encantamento, bom humor e esplendor técnico. A dupla Sully & Mike (John Goodman e Billy Cristal, na versão original que agora veremo apenas em vídeo) está entre as melhores ofertas de Hollywood no ano passado. A última cena do filme - antes dos créditos impagáveis - é para figurar em qualquer antologia.


