A hora e a vez dos 'manos e minas'
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sábado, 03 de maio de 2008
Flávia Guerra<br> Agência Estado 
''Satisfação! Só os aliado, só os companheiro'' , brada o rap do mestre-de-cerimônias da noite. E os aliados devolvem o verso: ''Us guerreiro! Us guerreiro.'' Na platéia do ''Manos e Minas'', o clima é ''mil grau''. Vários manos, atitude, responsa, Zona Sul, Zona Norte, Zona Oeste, e, claro, ''Zona Leste somos nós''. A animação é total enquanto Rappin Hood conduz a galera, que samba ao som de Jorge Aragão (tem samba, sim, sinhô) e cala em solidariedade quando o assunto é a falta de trabalho na periferia.
Na tela, um jovem rapper fala do drama de procurar emprego - enquanto distribui currículos, faz seu rap. Na platéia, depois de assistir ao vídeo, um ex-presidiário solta o verbo: ''Fui enquadrado no artigo 157. Cumpri minha pena. Tô livre e quero trabalhar. Mas quem vai dar emprego para um ex-presidiário?'' Jorge Aragão quebra o silêncio solene: ''Quem quiser trabalhar comigo procure minha equipe. Tem vaga para ajudante geral na turnê que estou fazendo. Não é muito, mas é um começo.''
Assim foi dada a largada de ''Manos e Minas'', que estréia nesta quarta-feira (dia 7) na TV Cultura, às 19h30, e promete fazer jus ao bordão ''tá tudo dominado''. Mas, afinal, o que é ''Manos e Minas''?
Programa de auditório? Show? Jornalismo? É tudo ao mesmo tempo - e agora. É o primeiro programa da TV nacional que não é só pensado mas também produzido pelo morador da periferia. ''Não é show. A 'vybe' aqui é diferente. Na TV, você troca energia com o público, mas nunca sabe como vai voltar. Está sendo ótimo. O pessoal troca idéia legal. É o espaço que faltava. Até hoje, quase sempre, quando falam de nós, é só na página policial'', reflete Rappin Hood. Em ''Manos e Minas'', ele é mais que apresentador. É mestre-de-cerimônias. ''Não tem personagem. Sou eu mesmo'', brada ele, que fez sua estréia na TV em 2007 no quadro ''Mano a Mano'', do Metrópolis, em que fazia reportagens sobre temas da cena periférica de São Paulo. ''No Metrópolis, era mais concentrado na cultura. Fomos formatando uma linguagem e amadurecemos a idéia de criar um programa novo'', comenta o diretor artístico de ''Manos e Minas'', Ricardo Elias.
Mas quem manda na pauta da periferia? Um coletivo criativo formado pelo diretor do Núcleo de Cultura e Arte Hélio Goldstein, pelo editor-chefe Ramiro Zwetsch, o diretor de cena Dinho e por Elias. O motorista do 'busão' cultural é Rappin Hood.
Por falar em coletivo, um dos destaques do programa é o quadro ''Buzão - Circular Periférico''. Já tradicional das quebradas, o ''Buzão'' é conduzido pelo agitador cultural Alessandro Buzo, que percorre em um ônibus os caminhos da periferia do Brasil. Para completar o time, a DJ Juju Denden faz reportagens com o toque das minas sobre assuntos diversos. Cabelo afro, comida de porta de estádio e, claro, moda. O escritor Ferrez fala da cena cultural que pulsa nas quebradas. Rappin também vai a campo em busca de reportagens sobre esporte e comportamento. E arremata: ''Satisfação! Tamo junto!''
Rappin Hood não se ilude. Tem de ter muita atitude. Sempre cordial e nunca rude, diz: ''Estou me habituando à função de apresentar um programa. Mas já adianto que a gente tá a fim de pôr umas pimentinhas neste rango. Tem de pôr o dedo na ferida. Tipo esgoto que tá faltando. Falar da falta de emprego. Tá ligado?''
Ligados estão os radares do público das classes C e D do Brasil. Um público que assiste à TV vorazmente, o morador das periferias nunca recebeu tamanha atenção de alguém que fala sua própria língua no horário nobre. E, a julgar pela platéia que tem lotado o Auditório ''Franco Zampari'' (que já foi ponto nobre da TV Cultura, ficou por muito tempo sem grandes funções e agora volta à boa forma com a nova programação da emissora), tem aprovado. ''Até hoje, teve várias pessoas que tentaram falar com a perifa, mas não rolava o 'mano a mano'. Para falar com esta galera, tem de ter identificação'', defende Hood.
Ele sabe do que está falando. O rapper fala a língua do jovem que vive nos arrabaldes das grandes cidades. ''Venho da mesma origem. A gente quer levar esta verdade para o mundo. Hoje, no fim da gravação, teve nego que veio me dizer: 'Poxa, Rappin, a periferia invadiu o bagulho. Invadiu, mano!'', continua ele, cujo próximo passo é estender o programa à periferia de outras capitais. ''Belo Horizonte e Rio de Janeiro estão nos próximos programas. Em breve, vamos achar uma solução para falar da periferia de todo o Brasil'', diz. ''É uma questão importante de produção que teremos de resolver. Manos e Minas não é barato. Não é um programa de uma sofá e uma mesinha'', acrescenta Goldstein.
A tarefa é dura, mas recompensadora. Até hoje, poucos conseguiram falar da periferia, e para ela, sem adotar o tom didático ou menosprezar o espectador. Regina Casé fez um belo ensaio de orquestra com Central da Periferia, em 2006. Mas nada se compara ao olhar que surge em ''Manos e Minas''. ''As equipes de produção dos quadros são da periferia. E têm o ponto de vista de quem vive o contexto. Isso faz toda diferença'', comenta Ramiro Zwetsch.
''Por isso é que a gente não quer falar só do bom. Quer falar do que também é problema. Falar de saúde, moradia, violência, emprego. Mostrar outras opções, que dá para ser mais que jogador de futebol ou cantor. O garoto tem de entender que o pai dele, que sustenta a família com o salário de metalúrgico, é digno também.''
Rappin, provando por que tem a justa fama de ter sorriso largo, coração grande e não dar bola para a lenda de que rapper tem de ser carrancudo e se fechar em seu gueto, vai além: ''Quero fazer os moleques transcenderem como a gente transcendeu. Aprender a ser cidadão do mundo.''


