A hora e a vez de Leila Pinheiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de abril de 2009
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
O ano de 2009 nasceu claro para Leila Pinheiro. E foi ela mesma quem quis assim. Seu novo CD ''Pra iluminar'' marca também o lançamento de seu selo musical, Tacacá Music.
O disco tem 17 faixas, todas dedicadas ao trabalho do paulista Eduardo Gudin, compositor que comemora 40 anos de carreira e mais de 300 músicas. A voz de Leila nas canções de Gudin é uma parceria antiga e bem-sucedida, que começou há 24 anos no Festival dos Festivais, da TV Globo. O samba ''Verde'', de Gudin, foi terceiro colocado e projetou Leila nacionalmente. ''Desde então Leila vem gravando minhas músicas e eu sinto que na sua voz elas estão onde têm de estar. Muitas vezes, quando percebo, estou compondo já pensando em seu canto'', confessa Gudin.
Nesta entrevista exclusiva para a FOLHA, Leila fala da expectativa com o CD e o selo, dos projetos para novos trabalhos e também da artista que adora os fãs mas detesta tietagem; da mulher curiosa que se interessa por tudo e vasculha a internet e ainda da intérprete que ''se acaba de chorar e não troca uma música triste por cinco alegres''.
O CD ''Pra Iluminar'' foi gravado ao vivo durante um show no Teatro da Fecap, em São Paulo, em 2007. Por que só agora você está lançando esse trabalho?
Para falar a verdade, eu nem pensei que ele fosse virar CD, mas quando ouvi o material, tinha tanta qualidade, vi que não podia deixar isso se perder. A gravação foi transformada em CD no começo de 2008, mas houve uma série de dificuldades com a EMI e decidi que era melhor aguardar. Além disso, o ano passado era a passagem da Bossa Nova e isso tomou grande parte dos meus shows. Não achei que era a hora certa.
O selo, Tacacá, é o nome de uma comida?
É isso, uma sopa quente com caldo de mandioca, um prato típico do Pará. Eu sou filha do Tacacá, cresci comendo isso. Esse nome foi uma forma de homenagear e divulgar a minha terra. Além disso, a palavra é indígena e muito sonora.
Como está sendo a experiência de administrar um selo diante de uma crise econômica?
É uma loucura. Eu não podia prever essa crise, mas toda hora há a dificuldade da hora, não é? Estou apostando todas as minhas fichas nisso, mas minha vida não é venda de discos, eu sobrevivo e pago as minhas contas fazendo shows. Portanto, estou lançando esse selo do tamanho que eu sou.
Quais são os próximos projetos para o selo?
Eu imagino um mar de lançamentos, mas estou procurando parcerias. Se eu tiver um parceiro é mais fácil, eu vou muito mais forte, posso me dividir entre shows e não me descapitalizo. Estou também de olho na internet, é uma fonte maravilhosa, bem usada, é superlegal para o artista. Ninguém pode virar as costas para isso e olha que eu ainda nem exploro como gostaria.
Como foi gravar ''Verde'' 24 anos depois? O que essa música significa para você hoje?
É outro ''Verde'', mais maduro (risadas). Ainda que essa seja uma canção muito gasta dentro de mim - eu já regravei tantas versões e arranjos dessa música - ela se renovou. E o público recebeu de uma maneira especial, muito comovente. É como se eu me reencontrasse com o compositor. A música sobreviveu esses anos todos, e a nossa relação também.
Você já gravou alguns dos maiores compositores brasileiros. Quem você ainda não cantou e gostaria de gravar?
Milton Nascimento. Estou mergulhada na obra dele e vai chegar a hora. Eu não entendo como ainda não gravei nada dele. Estou com a obra completa do Milton aqui em casa, ouvindo de manhã, de tarde e de noite. Estou me acabando de chorar. As canções dele são assim, têm uma tristeza tão profunda... Esse é o ponto da canção, fazer as pessoas refletirem, ouvirem uma vez e voltarem para ouvir de novo... Minhas músicas não são para fazer as pessoas dançar. Eu não troco uma música triste por cinco alegres.
Você já disse que não gosta de gravações ao vivo e também não é de se expor, parece que você não curte muito esse negócio de fã-clube...
Meus fãs são meus amigos. Não gosto de tietagem, não alimento o eu fora do palco. Não consigo nem alimentar esse negócio de fã-clube - eles acabam se irritando comigo. Não dou trela para revistas de fofocas, não gosto disso. Quero que me vejam como uma pessoa normal, não como um ídolo. Eu gosto do público, não me escondo, mas privilegio a minha música, minha arte. É isso que eu quero deixar para o mundo.


