Cena de ‘‘Pânico’’: boa dose de suspense, susto e sangue mexe com a adrenalina do espectadorNos últimos anos submetido a torturas de toda sorte, o terror cinematográfico faz o impossível para seguir manipulando as platéias. Na falta de monstros convincentes e positivamente assustadores, o apelo é ao velho e sanguinolento ‘‘grand guignol’’, obtido através de recursos tecnológicos ou simplesmente acionando a já batida mas sempre eficaz fórmula que se poderia chamar de os três esses: suspense, sustos e sangue, em doses mais ou menos equivalentes. Alguns contemporâneos estão agindo neste território com certa desenvoltura, o que não significa obrigatoriamente talento. Um deles é Wes Craven, que ao lado de George A. Romero, John Landis, Tobe Hopper, Daniel Attias e Tom Holland vem construindo uma filmografia com alguns picos de interesse. É o caso desse ‘‘Pânico’’(veja a programação na página 3), coqueluche norte-americana na recém-encerrada temporada natalina.
Serial killer -Quase sempre endereçado a um público pouco mais que adolescente, filmes como ‘‘Pânico’’ não fornecem em geral outras fontes de interesse que não a tensão insuportável entrecortada (sempre literalmente...) por requintadas execuções em tempo e hora de certa forma previsíveis. Neste caso, duas novidades constituem uma espécie incomum de tempero. A primeira é um certo charme perverso quando se observa os personagens sob determinada perspectiva social; e a outra é um pequeno detalhe de quase metacinema. O assassino, obviamente um sociopata, força via telefone suas potenciais vítimas a um sinistro joguinho de adivinhações. O questionário se refere justamente a filmes de terror. Quem errar a resposta morre. O artifício de Craven é engenhoso porque obriga e escraviza o espectador a duas tortuosas manobras, ao invés de apenas uma: estar paralisado pelo medo e portanto impotente diante dos assassinatos, ao mesmo tempo em que deve tentar exercitar a memória de cinéfilo e colocar-se a salvo da ameaça. O fato, muito provável, de o espectador sozinho na escuro da sala de projeção não saber ou errar a resposta é o golpe decisivo de Craven para submeter totalmente a platéia a suas maquinações.
Tensão e medo -Nesta trama em que uma jovem se vê às voltas com a investigação da morte violenta da mãe e com um perigoso maníaco, o que de fato importa é a tentativa de se criar situações em que tensão e medo atinjam níveis de quase nenhuma tolerância por parte do público. É como se Craven estivesse buscando freneticamente a resposta para uma questão crucial que explique a popularidade deste tipo de filme: como e por que o cinema de terror desta última década parece tão gratificante para as platéias que acorrem em massa? Além de determinados pressupostos fisiológicos (descarga de adrenalina e excitação sexual como resposta ao estímulos do insólito e do cruel) e psicológicos (é possível, desde que a salvo na poltrona, alternar os papéis de vítima e algoz, numa inconsciente troca sadomasoquista), é importante ainda agregar um outro fator. As variadas formas de sensacionalismo que regem a mídia contemporânea neste fim de século (espetáculos, sexo, violência, mistério, suspense, personalidades e suas atitudes públicas e privadas) são responsáveis diretas pelas alterações de comportamento. E no caso do cinema de terror, o que impulsiona a engrenagem sensacionalista é exatamente a escalada da crueldade dentro e fora dos limites do gênero nesses últimos anos, gênero bem mais pérfido e inquietante do que ao tempo e aos cuidados de românticos vampiros, múmias, lobisomens e criaturas do além.

mockup