A hora da virada
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de outubro de 1998
André Bernardo Cult Press 
Como qualquer astro da tevê americana, George Clooney já se viu diante de um dilema. Receoso de ter de repetir o mesmo personagem por anos a fio, o ator que interpreta o Dr. Ross, de Plantão Médico, resolveu arriscar o cinema. A experiência, porém, não foi muito bem-sucedida. Depois de três filmes em que não convenceu - Um Dia Especial, O Pacificador e Batman e Robin - George Clooney está mais para David Caruso, que se deu mal ao deixar a série Nova York Contra o Crime, que para Bruce Willis, que teve a sorte de emendar A Gata e o Rato com Duro de Matar. Com Irresistível Paixão, que estréia hoje nos cinemas brasileiras, Clooney espera mudar o quadro.
George Clooney interpreta Jack Foley, um ladrão de bancos que foge da prisão com a ajuda do parceiro Buddy Bragg, vivido por Ving Rhames, de Pulp Fiction. Durante a fuga, eles sequestram Karen Sisco, uma agente federal interpretada pela mexicana Jennifer Lopez. Como já era de esperar de Elmore Leonard - autor de livros já famosos no cinema, como O Nome do Jogo, adaptado por Barry Sonnenfeld, e Jackie Brown, de Tarantino - o assaltante e a policial se apaixonam. Karen acaba escapando dos bandidos, mas não consegue tirar o meliante da cabeça. Na segunda parte da história, ela corre o país atrás do sujeito, enquanto ele planeja um último golpe.
A Universal se arriscou quando escolheu Steven Soderbergh para a direção de Irresistível Paixão. Afinal, o mais jovem diretor do mundo a ganhar a Palma de Ouro em Cannes - quando fez Sexo, Mentiras e Videotape tinha 26 anos - não conseguiu emplacar mais nenhum filme. Passados nove anos, ele colecionou fracassos como Kafka, Obsessão e O Inventor de Ilusões. Aos 35 anos, um dos pioneiros do cinema independente americano espera dar uma guinada na carreira e, para isso, junta-se a um dos mais requisitados autores da temporada. O americano Elmore Leonard é hoje o que Michael Crichton, de Jurassic Park e Assédio Sexual, e John Grisham, de A Firma e Dossiê Pelicano, foram há alguns anos: o autor da vez.
Apesar de tudo, Irresistível Paixão atesta o quanto os executivos da Universal não estavam enganados. O filme funciona bem ao mostrar que Soderbergh não deve ter vergonha de render-se aos apelos dos grandes estúdios e, principalmente, que o subestimado George Clooney pode render, se melhor aproveitado. O ator está ótimo no papel do gatuno que assalta bancos sem carregar uma arma sequer. Contrariando a atual tendência do cinema policial americano, revisitado por nomes como Quentin Tarantino e os irmãos Coen, Soderbergh prova que ainda é possível fazer um bom thriller policial em que nem tudo se resolve no tiroteio final entre mocinhos e bandidos.


