A hora da verdade
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 1997
Jackeline Seglin 
Milton DóriaO homossexualismo, hoje, é uma opção para muitos adolescentes, apesar da discriminação, da pressão social e das dúvidas que atormentam suas cabeças.Taís, 20 anos. O primeiro encontro sexual aconteceu aos 13, no banheiro da escola. Embaladas por um pileque de vinho, ela e outra garota deixaram rolar a atração.Foi sexo de primeira.
Janaína, 17 anos, bissexual. Também se relacionou com uma garota aos 16 anos - A moça era carinhosa, carente e passava isso na relação. O primeiro beijo aconteceu no banheiro do cinema. Ficamos juntas ali mesmo.
Eduardo, 22 anos. Resisti até os 17 anos, mas depois de um show da Madonna vi que existiam muito mais gays que eu imaginava. Desde então, troquei a roupa, vocabulário, modos, personalidade, tudo.
Marcelo, 16 anos. Descobri que gostava de meninos aos 14. Logo no princípio é estranho porque é uma coisa diferente. Marcelo mora com a família, mas não se intimida: tira as sobrancelhas, pinta o cabelo, faz depilação e namora um rapaz de 27 anos, pelo qual está apaixonado.
Histórias como essas ilustram a vida de muitos adolescentes. O homossexualismo, hoje, é uma opção para alguns deles. Deixando de lado a discriminação e a dificuldade em tratar do assunto, eles tomam fôlego e abrem seus diários secretos, contando a pressão que sofrem da sociedade e as dúvidas que algumas vezes atormentam suas cabeças: os teens homossexuais buscam seu espaço.
Janaína, por exemplo, está longe do esteriótipo da mulher masculinizada. Usa roupas descoladas e justas, cuida das unhas, tira sobrancelhas e usa brincos. Como Taís, que apesar disso afirma que é muito difícil ser homossexual, porque nem toda a sociedade aceita e compreende. No trabalho, poucas pessoas sabem e alguns fazem piadinhas... Na escola é mais difícil ainda - conta - o pessoal tira sarro e quer saber detalhes.
Taís teve um namorado por dois anos e foi até noiva. Bastante paquerada pelos homens, ela sempre dá um jeitinho de fugir. Eu não aguento um namorado nem por duas semanas, avisa.
Estabilidade Um dos passos mais difíceis na vida desses adolescentes é abrir o jogo com a família. A maioria deixa rolar, ou melhor, enrolar o quanto pode. Dizem que tudo o que é escondido é bom. Mas na verdade não é, fala Taís. Sempre a mãe acha que a filha está certa e a outra a levou para o caminho errado. E não é bem assim. Hoje ela tenta abrir o jogo com a mãe, que pediu que a filha procurasse um psicólogo. Na família, o drama pode piorar quando a irmã de 15 anos revelar que escolheu o mesmo caminho. Janaína acha que sempre deu bandeira de que gostava de meninas. Eu faço isso para ver se minha mãe pergunta. Mas a gente se afastou por causa disso.
Para os meninos as dificuldades também existem. No caso de Eduardo, insinuações são comuns na rotina caseira. Ele pensa em assumir a responsabilidade um dia, mas primeiro quer ter estabilidade econômica para bancar sua decisão. Meu medo é meus pais não aceitarem. Eduardo se diz satisfeito em saber que nem todos os pais são incompreensíveis. Tenho um amigo que levou o namorado para morar com a família.
Por outro lado, Marcelo dribla a família como pode. Eu sei que eles desconfiam, mas eu nego, confessa. Eles questionam, por exemplo, as roupas que Marcelo usa, como baby look, sapatinho country e calça anti-fit (reta e cintura baixa). Colocar o assunto para a família é muito complicado. Então é melhor eu completar meus 18 anos e daí ver o que vou fazer....
A descoberta Dos 11 aos 17 anos, eu arrumava namorado para fazer uma linha, diz Taís, que aos 18 assumiu de vez sua homossexualidade. Mas foi aos 13 que ela sentiu uma coisa estranha por mulheres. No início, achei que estava louca. Via os esteriótipos e pensava: jamais quero ser assim!, lembra. Nessa época, começou a frequentar guetos. Quando vi duas mulheres juntas pela primeira vez tive vontade de chorar, conta.
Janaína lembra que desde os 12 anos sempre foi apegada às amigas e era inibida com os homens. Faltava alguma coisa. Sua primeira relação com um homem foi um desastre. Aos 16 anos, a menina começou a frequentar uma boate gay e viu que o que ela sentia por outras meninas não era só amizade. Vi também que não era pecado. Janaína namora um rapaz há seis meses, que sabe de toda sua história e aceita numa boa.
O primeiro caso amoroso de Eduardo aconteceu aos 17 anos, quando ele ficou com um garoto de 15. Aí descobri que não era nenhum bicho de sete cabeças. Ficamos juntos dois meses e descobrimos um monte de coisas. Mas Eduardo procura preservar sua imagem: Eu gosto de homens, mas no meu espaço e na minha privacidade. E diz estar passando por fases. Eu não odeio mulheres, inclusive já tive namorada. E acho até que posso voltar a namorar mulher.
Marcelo namorou uma menina aos 15 anos. Sua primeira relação homossexual aconteceu durante uma brincadeira de esconde-esconde, com um amigo.
A adolescência é a fase das descobertas, das indecisões e das cobranças. Da descoberta da sexualidade. E nessa dança ninguém pára. Como Taís, Janaína, Eduardo e Marcelo... Adolescentes encarando a vida.
* Obs: Os nomes dos entrevistados são fictícios.


