Uma paixão atormentou o jornalista Domingos Meirelles durante duas décadas: ‘‘escrever um livro que revelasse o longo e comovente martírio dos rebeldes que participaram da marcha da Coluna Prestes’’. O jornalista começou a se interessar pela história dos jovens que entregaram suas vidas em nome de uma causa - transformar o Brasil em uma nação livre da corrupção - em 1972.
Em 1974 quando trabalhava em uma reportagem sobre a rebelião paulista de 5 de julho de 1924, a curiosidade se transformou em paixão. Domingos Meirelles não se limitou a colher dados de documentos sobre o levante e a marcha, mas também saiu em busca de testemunhos vivos. Traçou um mapa para refazer a marcha da Coluna, com o auxílio do general Emigdio Miranda e dos marechais Juarez Távora e Cordeiro Faria.
Na busca obstinada pela reconstituição de uma parte pouco conhecida da história do Brasil, o jornalista se deparou com fatos importantes e muitos deles esquecidos em apenas 50 anos. ‘‘Desenterramos fatos surpreendentes, como o plano da oposição paraguaia de contar com a ajuda dos rebeldes para derrubar o governo do seu país, além de versões inéditas sobre episódios conhecidos, histórias que haviam se perdido no rastro da Coluna mas que ainda permaneciam bem nítidas na lembrança de toda aquela gente’’, revela o jornalista em seu livro.
Arquivo particular do coronel Horácio Matos, chefe sertanejo que comandou o Batalhão Patriótico Lavras Diamantina, microfilmes da correspondência diplomática reservada mantida entre 1920 a 1930 entre o Departamento de Estado e as embaixadas americanas no Rio de Janeiro, Buenos Aires e Montevidéu; entrevistas com rebeldes que participaram da marcha como o ex-soldado do Exército, Guilhermino Barbosa e o ex-revolucionário Nelson Pereira de Souza, o Bamburral, foram apenas algumas das fontes que resultaram em ‘‘As Noites das Grandes Fogueiras - Uma História da Coluna Prestes’’, lançado em 1995.
Meirelles afirma que o grande atrativo do livro não está apenas em trazer à luz uma parte da história pouco conhecida, mas no fato de que 70 anos depois a história se repete. Em entrevista à Folha2, Meirelles afirma que existem pontos fantásticos de contato entre a história hoje e os anos 20.
O plano de reforma do Estado que o presidente Fernando Henrique Cardoso está implantando, segundo Meirelles, é uma cópia do programa imposto por uma comissão econômica inglesa em 1923 ao presidente Artur Bernardes como condição para a liberação de um novo empréstimo ao Brasil.
O plano real, Fernando Henrique copiou do plano de estabilização da moeda e do câmbio do presidente Washington Luís de 1926, que por sua vez o copiou de um programa francês. ‘‘Os mesmos vícios e pecados da Velha República, que acreditava-se terem desaparecido com a sua derrocada, continuam bem vivos nos dias de hoje. Os personagens só mudaram de nome’’, afirma.
Domingos Meirelles já se debruçou sobre outro episódio da nossa história, a Revolução de 30. Este livro deverá estar concluído no ano 2000. Para o próximo ano o jornalista prepara um livro com suas principais reportagens em seus 33 anos de profissão. Hoje, Domingos Meirelles está em Londrina para falar sobre a Coluna Prestes aos estudantes de jornalismo da Universidade Estadual de Londrina.
Na profissão há mais de 30 anos, o carioca nascido em 1940 é um dos mais premiados jornalista da imprensa brasileira. Ele começou na profissão em 1965 no jornal Última Hora. Em seguida passou pelas redações das revistas Cláudia, Quatro Rodas e Realidade e dos jornais O Globo, Jornal da Tarde e O Estado de S.Paulo.
Durante mais de uma década foi repórter especial da Rede Globo, depois foi para o SBT. Atualmente não está em nenhuma emissora. Ele conversou com a Folha2 por telefone e falou também sobre história e jornalismo.


Tanto ‘‘As Noites das Grandes Fogueiras’’ quanto o seu próximo livro sobre a Revolução de 30 tratam de fatos históricos. Você tem uma evidente preocupação com o assunto...
Costumo dizer que sem passado não há futuro. O Brasil tem pouca informação de seu passado recente. Em decorrência, esta sociedade está sujeita a fraudes e a estelionatos políticos. Mesmo a historiografia tradicional serve o poder, é a visão de quem venceu, da elite. Coluna Prestes é uma história maldita, porque não interessa, então se rotula se esconde embaixo do tapete. Não há interesse por parte dos dominantes em transmitir a história. Fatos como o bombardeamento da cidade de São Paulo durante o levante, simplesmente são deixados de lado, porque contrariam um falso conceito de que o brasileiro é um povo pacífico que resolve as grandes questões através de acordos de cavalheiros. Isto é uma fraude. O nosso passado é marcado por muita violência e brutalidade. Esconde-se isto para manter a sociedade neste estado de torpor. Desta forma mantém-se um povo sem identidade política e cultural, sem consciência. Um bando de cordeiros é mais fácil de se comandar.
Como você vê a prática do jornalismo na grande imprensa, atualmente?
Tenho uma visão muito pessoal. Nos últimos 30 anos nunca se viu tamanha demonstração de vassalagem e servilismo diante do poder. É um espetáculo de servilismo que se renova constantemente. É com profundo constrangimento que eu abro os jornais e vejo um jornalismo de chapa branca. Até mesmo profissionais que um dia foram respeitados estão transformados em estafetas, office-boys do Planalto Central. A crônica política é exercida por office-boys.
Pode-se afirmar que a grande imprensa está a serviço do poder?
A grande imprensa está de joelhos diante do poder central, como vai exercer algum tipo de atividade com inteligência. O que se faz hoje é uma grande idiotice. Quando eu comecei os jornais eram grandes trincheiras da liberdade na luta contra as desigualdades sociais. Existia uma preocupação sincera em lutar por uma sociedade mais justa. Hoje a idéia geral é de que não adianta fazer mais nada. É um tipo de adesismo esfarrapado e cínico. É claro que dá para fazer muita coisa.
A partir de quando nota-se mais claramente esta mudança no comportamento dos jornalistas e mesmo das empresas de jornalismo?
Este processo se acelara no governo do FHC. Na ditadura militar, baionetas, censuras, prisões subjugavam a imprensa. O Fernando Henrique transformou a imprensa em parceira para participar da grande pilhagem do patrimônio público. Todas as empresas de jornalismo são sócias do governo. Através das licitações de telefonia celular o FHC coaptou estas empresas. O caso da conta no exterior do FHC, por exemplo, em menos de 15 dias estará fora da imprensa. Vão substituir por outro escândalo. Como você vai denunciar seu sócio maior?
Com o processo industrial, a padronização dos jornais, a informação transformou-se em uma mercadoria. Qual sua análise sobre a mercantilização da informação?
É uma visão mercantilista da grande imprensa. Tratam a notícia como um produto e o leitor como consumidor. A preocupação não é com a qualidade da informação, mas com dourar a roupagem para vender. Outra análise possível é o distanciamento dos jornais do grande público. Os jornais quando se transformam em grandes indústrias gráficas se afastam do cidadão comum. Nos anos 70, jornais como Estadão, Jornal do Brasil, O Globo, ao se transformarem em grandes indústrias gráficas saíram do centro da cidade e foram para a periferia. Antes, o que separava o leitor do seu jornal era um lance de escadas. Os jornais ficaram física e geograficamente distantes do público. Este é um outro aspecto neste processo.
Este contexto propicia o surgimento de programas populares como o do Ratinho?
Esses programas tratam de forma escatalógica questões que a grande imprensa não contempla. Na verdade este fenômeno curioso mostra que a grande imprensa padronizada e homogênea abriu brechas para o surgimento de ‘‘ratinhos’’ ao deixar de discutir estes assuntos. Se a televisão tratasse das questões exploradas pelos programas populares - como brigas de marido e mulher, de pais e filhos - em seus programas de reportagem de uma forma séria, digna, elegante e mais sensível, estes ‘‘ratinhos’’ não teriam tanto espaço. Antes de massacrar o Ratinho é preciso ver do que este roedor se alimenta. Outro aspecto é que o Ratinho, por exemplo, representa em seu show a falência do poder público e o substitui. Ora ele é delegado e manda prender, ora é Ministro da Saúde e mander curar, ora é promotor, ora é juiz.

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