Existem amigos que conhecemos intimamente, existem amigos que conhecemos pessoalmente, existem amigos que de quem só conhecemos a voz. Durante anos conheci assim, pela voz, o escritor Wilson Bueno, quando ele enviava crônicas semanais à Folha e conversávamos por telefone. Naquele período, anos 90, ele já tinha publicado uma dezena de livros, mas fazia questão de perguntar o que eu tinha achado deste ou daquele texto. Trocávamos algumas impressões e ele me chamava de Celinha, como outros amigos.
Na última segunda-feira soube que ele havia morrido, de forma brutal, violenta, e na minha cabeça passou como um filme os nossos pequenos contatos, sua generosidade, seu estímulo para que eu escrevesse. Por conta disso, me convidou algumas vezes a fazer textos para o ''Nicolau'', órgão da Secretaria de Cultura do Estado que ele cultivou como um dos melhores jornais culturais do País. Um dos convites foi para fazer a resenha do livro ''Poty, trilhos, trilhas e traços'', de Valêncio Xavier, o que me estimulou demais devido à grandeza do autor e do biografado.
Com Bueno tudo era o máximo, como sua literatura que o colocou entre os nomes mais importantes da cena nacional. Foi ele o criador do ''portunhol selvagem'', estilo que marca seu livro ''Mar Paraguayo'', que mistura português, espanhol e guarani. Um deleite para mentes, olhos e ouvidos atentos aos desdobramentos da linguagem. Não quero repetir aqui o que a imprensa já falou durante a semana, depois de sua morte, à exaustão. Mas é inevitável que, quando alguém morre, a gente preste atenção à sua Caixa de Realizações, como chamo a criação que se deixa como a marca de nossa passagem pelo mundo.
Tão grande quanto o coração de Bueno é sua Caixa de Realizações: treze livros publicados (o décimo quarto - ''Mano, a Noite Está Velha'' - será publicado postumamente), centenas de crônicas, passagens marcantes por jornais e revistas, a criação do ''Nicolau'', nome de gente para um jornal sensível.
Ele começou a publicar aos doze anos, seguiu no ofício como um pássaro que nos mostrou a liberdade de existir a partir da literatura. Porque a produção de Bueno se apoiava em beleza, liberdade e inventividade. Escreveu livros tão diferentes uns dos outros, tanto nos títulos, que às vezes soavam como poemas - caso de ''Amar-te a ti nem sei se com carícias'' - quanto nos conteúdos, deixando clara sua inquietude como pessoa e como autor.
Bueno partiu cedo demais, mas deixou um rastro criativo que parece aquele das pessoas que têm muita pressa. Eu diria ''pessoas-cometas'', que passam rapidamente e deixam uma luz que ilumina para sempre territórios delicados como a literatura.
Até aqui me ocupei de reproduzir seu rastro, mostrando as estrelas de sua Caixa de Realizações, mas quero dizer que não me falta emoção ao falar dele. Só que preferi enfocar sua dimensão de primeira grandeza, para que a gente não se esqueça de que quem passou por aqui foi um cara generoso, talentoso e formidável. Um pássaro sobre o qual sempre haverá coisas a dizer, porque sua curta história foi longa e produtiva, deixando caminhos abertos como uma das frases que ele criou para o ''Manual de Zoofilia'': ''Os pelicanos são como avis raras, e moram, em seu silencioso coração, as reticências.'' Pois é Bueno, sempre as reticências, para uma história que não deveria ter fim.
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