A história na ótica dos Panteras Negras
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de agosto de 2000
Eliza Wagner De Nova York Inter Press 
Um documentário, contendo entrevistas com alguns dos fundadores dos Panteras Negras, conta a verdadeira história de um dos grupos de direitos civis mais incompreendidos dos Estados Unidos. O filme se chama Inimigo Público e contém imagens dos protestos, ocupações e choques com a polícia nos anos 60, além de entrevistas com alguns de seus fundadores. Jean Meurer, o autor, pretende revelar a influência que o grupo, perseguido pela polícia e difamado pela imprensa branca, teve em sua época e, particularmente, na comunidade negra.
O Panteras Negras foi fundado na Califórnia, em 1966. Era temido e criticado pela população branca por causa de suas táticas agressivas para acabar com a sistemática opressão e degradação contra os cidadãos negros.
Jamel Joseph conta que os integrantes do grupo entravam nas casas de conhecidos traficantes e os mantinham como reféns enquanto destruíam drogas e roubavam dinheiro que, em seguida, era distribuído entre as comunidades mais carentes. Jamel passou nove anos e meio na prisão. Bobby Seale, outro dos fundadores, conta que as suas táticas eram estabelecidas segundo a leitura de livros e da escuta do canal de rádio da polícia de Oakland. Patrulhas de Panteras Negras percorriam as ruas de seus bairros, formando um cinturão de vigilantes, para mostrar às autoridades que não tolerariam o racismo e a brutalidade da policia em suas comunidades.
Inimigo Público mistura imagens de distúrbios com passeatas pacíficas promovidas pelo líder negro Martin Luther King e duramente reprimidas pela polícia. Os Panteras Negras aparecem marchando em linha, usando as suas características boinas e jaquetas negras, olhando furiosos em direção às câmeras e entoando protestos, como Não mais irmãos nos cárceres! Todos os porcos irão para o inferno!. Era uma boa propaganda, tão boa que me convenceu a unir-me a eles, conta Jamal Joseph.
Os Panteras Negras nunca se opuseram aos métodos pacíficos de protestos, como os promovidos pelo assassinado Martin Luther King, mas acabamos mudando de tática de tanto ver mortos e feridos nos choques com a polícia, conta Seale. Tínhamos que nos defender e nada nem ninguém nos fariam voltar atrás.
Jamal recorda como ingressou no grupo. Pensava que haveria um ritual de iniciação, envolvendo necessariamente a morte de um policial. Mas, na verdade, apenas perguntaram se eu estava disposto a matar ou morrer pela causa. Quando deu o sim, Joseph esperava receber, de imediato, uma arma. O que recebeu, porém, foram vários livros. E a minha arma? - perguntei. É o que acabamos de fazer. Essas são as suas armas, responderam.
A história do grupo registra 14 policiais e 29 Panteras Negras mortos, enquanto um número bem menor destes era enviado para as prisões, para não falar dos que sofreram traumas emocionais.
Inimigo Público documenta como o FBI, então dirigido por J. Edgard Hoover, investigava os Panteras. Hoover considerava o grupo como a maior ameaça à segurança interna do país. A sua desintegração acabou se dando graças às infiltrações de agentes do FBI. Os Panteras Negras, constituído principalmente de jovens e adolescentes, chegou a contar com 5 mil membros, dentro e fora dos Estados Unidos, 45 bases de operação e um jornal com tiragem de 25 mil exemplares.
O documentário é distribuído pela Archipel 33, de Paris, e uma cópia pode ser adquirida pela Internet, através do correio eletrônico archip33imaginet.fr. (IPS)


