Um trabalho de antropologia da cena teatral de São Paulo. Assim pode ser definido o livro ''Cem Anos de Teatro em São Paulo'', escrito a quatro mãos por Maria Thereza Vargas e Sábato Magaldi. A obra recebeu edição caprichada da Editora Senac/SP e apresenta farto material ilustrativo, que permite constatar as diferenças e variações evolutivas do teatro na maior cidade brasileira, compreendendo os anos de 1875 a 1974.
Como escritora, Maria Thereza Vargas assina a biografia ''Uma Atriz: Cacilda Becker'', enquanto que Sábato Magaldi é um dos maiores estudiosos do teatro brasileiro e internacional. Ancorado em informações de imprensa, os autores sistematizaram de forma evolutiva as notícias resumidas de cada ano, entremeadas com críticas de peças e fatos representativos nesse período.
São Paulo de 1875 não contava com 30 mil habitantes. O teatro sobrevivia numa capital provinciana. Já nesse período, os atores sofriam com os baixos rendimentos. A receita de algumas apresentações eram revertidas para os próprios atores em função dos dramas da profissão. Em 1875, o ator Bento da Silva informava que era ''doente da pele e necessitando tomar banhos nas Caldas, em Minas''.
No início do século XX, nos palcos de São Paulo reverberavam os mais variados sotaques. Companhias alemãs, portuguesas, francesas, italianas e inglesas formavam a babel teatral. Essa avalanche de companhias estrangeiras incomodava os mais inquietos. O crítico Alcântara Machado afirmou em 1923 que a ''cena nacional não conhece o curandeiro, o industrial. Não conhece nada disso. E não nos conhece. Não conhece o brasileiro. É pena. Da dó.''
Se em qualidade o teatro nacional, em meados de 1914, ainda carecia de maior representatividade, quantidade era o lema da Cia. de Operetas e Revistas, dirigida por Leopoldo Fróis, que se anunciava como a mais completa vitória do teatro popular, tendo no repertório 58 peças (!).
Nesse período, os gêneros das companhias nacionais mais comuns eram operetas, vaudevilles, revistas satíricas e comédia típica musicada. Interessante observar que os atores se fixaram em gêneros: primeiro ator, ator cômico, ator característico, parodista, primeira atriz típica, primeira atriz brilhante, atriz cantora, atriz de cortina e caricata. A abundância de sessões também foi registrado: três sessões por noite, das 19 à meia noite, isso em 1929.
Nomes de projeção circulavam pela paulicéia. A atriz Sarah Bernhardt se apresentou por três vezes em São Paulo, (1886/1893/1905). O povo saudava a diva francesa na gare da estação de trem. Durante a última turnê, a atriz sofreu um acidente que mais tarde seria a causa da amputação de uma de suas pernas. A atriz italiana Eleonora Duse, em 1907, (Hedda Gabler), Isadora Duncan, em 1916, também causaram comoção ao se apresentarem. Outros nomes de projeção apareceram em São Paulo, em 1962, como Vivien Leigh (Sonho de Uma Noite de Verão) e John Gielgud fez parte do elenco de ''Homens e Mulheres de Shakespeare'', em 1966.
Nesse mergulho à genuína essência do teatro em São Paulo, os autores não esquecem as figuras que contribuíram decisivamente para a popularização do teatro, como Procópio Ferreira. ''Procópio era, sem dúvida, o ator preferido do público paulista'', destacam. A dupla Dulcina e Odilon também mereceram citação, pois desbravaram o teatro em prol do descanso semanal do artista no Brasil, em 1941.
Dois artistas ainda crianças se apresentaram em palcos paulistanos. Em 1926, fazia parte do elenco de ''Rigorosa e Absoluta Moralidade'' o Pequeno Otelo, de 6 anos (no futuro Grande Otelo, que na verdade tinha 11 anos nessa época.) Eva Todor, bailarina de 9 anos pertencente à Ópera Real da Hungria, se apresentou no Teatro Municipal, em 1929.
O acontecimento de junho de 1944 foi a vinda a São Paulo do grupo ''Os Comediantes'', do Rio de Janeiro, com a antológica montagem de ''Vestido de Noiva'', de Nelson Rodrigues, peça que viria a ser a pedra angular do moderno teatro brasileiro. Sábato e Vargas evidenciam que o ano decisivo na transformação do panorama teatral foi 1948, com a criação do Teatro Brasileiro de Comédia e da Escola de Arte Dramática de São Paulo. A EAD formou profissionais como Leonardo Vilar, Francisco Cuoco, Bertha Zemel, Myriam Muniz, Sérgio Mamberti, Aracy Balabanian, Ney Latorraca, Esther Góes e tantos outros.
O Teatro de Arena contribuiu sensivelmente para a nacionalização do palco. Em 1958, modificava o panorama dos palcos em São Paulo com ''Eles Não Usam Black Tie'', de Gianfrancesco Guarnieri. Já o Teatro Oficina imprime mais sua marca com as montagens de ''Pequenos Burgueses'', de Górki, em 1963, e ''O Rei da Vela'', de Oswald de Andrade, em 1967.
''O TBC, o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, foram, sucessivamente, as mais significativas organizações do nosso palco, a partir de 1948, não igualadas em importância nem pelos mais inquietos grupos cariocas. Cada um deles trouxe uma contribuição específica e imediata para o desenvolvimento do nosso teatro'', assinalam os autores.


''Cem Anos de Teatro'', de Sábato Magaldi e Maria Thereza Vargas, Editora Senac, 435 páginas, R$ 45,00.

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