A história do bandolim
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quinta-feira, 07 de janeiro de 2010
Lucas Nobile<br> Agência Estado 
''Duas escolas, dois estilos, uma grande afinidade, um só coração.'' A declaração de afeto nada mais é do que o encerramento do texto do encarte, escrito pelo punho do próprio Joel Nascimento, em ''De Bandolim a Bandolim'', disco recém-lançado por ele e Hamilton de Holanda.
O álbum, gravado em 2008, é a confluência de talento e o encontro de duas gerações do instrumento que há séculos floreava melodias da música erudita - e que posteriormente se tornaria um ícone dos chorões nacionais. Nota-se no discurso dos dois bandolinistas, embora não tenham nenhum parentesco, uma admiração que beira a de pai para filho.
''Falo com plena convicção, o Hamilton é um dos maiores músicos da atualidade deste País, e de toda América do Sul. O que ele vem fazendo com o instrumento é algo que não se fazia e muita gente está copiando'', diz Joel, orgulhoso de seu pupilo.
De fato, a sentença do bandolinista, nascido no bairro da Penha, no Rio de Janeiro, em 1937, não é nenhum devaneio. O que o instrumentista de 33 anos, nascido em São Cristóvão, faz não se resume apenas ao pleno domínio da técnica - habilidade de Hamilton tão reconhecida como afirmar que a pólvora explode. Seu bandolim é tocado com a inventividade exigida pelo sentimento; e com a humildade de alguém que não tivesse a mínima noção de sua genialidade. Hamilton enaltece o tempo inteiro a generosidade de Joel, mas, aberto ao diálogo, é daquelas pessoas que deveriam ser proibidas para diabéticos, de tão simples, doces e dóceis que são. ''O que eu fiz no disco foi o acompanhamento, buscando acordes e harmonias diferentes, mas deixando aparecer o brilho merecido dos solos do Joel'', conta Hamilton.
O resultado é um disco gravado apenas com dois bandolins, que em momento algum de cruzam ou se embolam. Muito se deve - além da tarimba dos dois - à aversão à cronologia em que De Bandolim a Bandolim foi feito, com merecido destaque na contracapa, com o seguinte recado: ''Feito artesanalmente.'' A explicação é simples.
''De Bandolim a Bandolim'' consegue mapear a trajetória do instrumento, unindo tradicional e contemporâneo. Como não poderia deixar de ser, o disco traz temas de chorões, como Pixinguinha (''Os Cinco Companheiros''), Jacob do Bandolim (''Falta-me Você'') e Ernesto Nazareth (''Gotas de Ouro''), além de registrar as suingadas e maliciosas ''Tu Passaste por Este Jardim'', de Catulo da Paixão Cearense e Alfredo Dutra, e ''O Bom Filho à Casa Torna'', de Bonfiglio de Oliveira.
A dupla fez um registro singular do antológico tango ''Por una Cabeza'' (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera). Indo mais longe ainda, espontaneamente encontrou no repertório erudito um grande diferencial para o álbum, com um trecho do segundo movimento do ''Concerto para Bandolim e Orquestra'' (Radamés Gnattali), e composições de Bach, Vivaldi e Beethoven.
Com exceção do tema de Vivaldi, todos os outros clássicos contaram com transcrições para o bandolim de 10 cordas, de forma inovadora e fiel. ''Não fizemos arranjos, mas transcrições. Não tem como mexer nessas obras. Seria como alterar a Monalisa e querer colocar o sorriso dela mais puxado para um lado. Ficaria muito estranho'', brinca Joel.


