A história de uma infância perdida
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de junho de 2001
De Londrina Especial para a Folha2 
Existem dezenas de romances narrados por vozes infantis. Utilizar a ótica das crianças para apresentar o mundo pode ser considerado um recurso literário frequente e de bons resultados. A Editora Companhia das Letras acaba de publicar O Perdido, romance que se enquadra nesse grupo de obras.
De autoria do poeta alemão Hans-Ulrich Treichel, o livro é narrado por um garoto de sete anos de idade que vive uma agonia torturante. Precisa dividir sua infância com a idéia da volta de um irmão que considerava morto e enterrado.
A história tem início no final da Segunda Guerra Mundial, com o pai e a mãe (ambos alemães) do garoto fugindo do avanço das tropas russas. No momento da fuga, sentindo a possibilidade da serem mortos, entregam o primogênito chamado Arnold a uma mulher desconhecida. O desespero leva-os a imaginar uma possível sobrevivência do menino diante da eminente execução de ambos.
O drama é que a fuga do casal é bem-sucedida mas, como tinham entregado Arnold, acabam ficando sem o filho. Com o passar dos anos, após o fim da guerra, tornam-se uma próspera família de comerciantes. Nesse período nasce segunda criança do casal, o narrador da história.
O garoto, desde o nascimento, convive com as dores dos pais diante da irônica perda do primeiro filho. Na verdade ele sabe que teve um irmão, mas suas dores têm início quando a mãe e o pai comunicam que talvez Arnold pode ser encontrado e voltar para casa. Isso significa que deixará de ser o filho único, terá que dividir seu espaço já constituído com um irmão fantasma que será mais badalado do que ele.
Graças à prosperidade dos negócios, a família se dedica com afinco às tentativas de encontrar Arnold, o filho perdido. Nesse processo o filho não perdido precisa passar por uma série de exames médicos para comprovar qual dos milhares de crianças que entopem orfanatos de guerra é seu irmão. Suas fragilidades são expostas e reviradas de modo humilhante.
O que seria o momento perfeito para a união da família, torna-se um verdadeiro maremoto. As relação amorosas são todas afogadas. Cada um se dirige para uma ilha de loucura diferente. A esperança de encontrar o filho perdido torna-se a causa da destruição do lar. O caos ocupa o lugar do amor, como se a projeção de um amor fosse muito maior do que o amor já constituído.
O Perdido é um romance que possui uma atmosfera psicológica complexa levando-se em conta a visão do narrador imaturo. As angústias de um menino de sete anos passam pelas neuroses de guerra que ainda atormenta a Europa. Não é uma literatura de digestão imediata, isso levando-se em conta as várias possibilidade de entendimento que levanta. Embora seja seu primeiro romance, Hans-Ulrich Treichel possui uma experiência poética anterior, com vários volumes de poesia publicados. Atualmente trabalha como professor de literatura na Universidade de Leipzig, Alemanha. (M. L.)
O Perdido - De Hans-Ulrich Treichel, Editora Companhia das Letras, tradução de José Marcos Mariani de Macedo, 112 páginas, R$ 18,00.


