São Paulo, 05 (AE) - Como todo bom conto de fadas, "Laura, a Voz de uma Estrela" também tem um lado sórdido. O filme de Mark Herman, com estréia nacional prevista para amanhã (06), fala de uma maravilhosa Cinderela moderna, Laura (Jane Horrocks), que vive num ambiente do mais profundo baixo-astral. A começar pela mãe, Mari (Brenda Blethyn), sexólatra compulsiva, chegada aos aditivos etílicos em escala industrial. Encontra um parceiro à altura na figura do cafajeste Ray Say (Michael Caine)
caçador de talentos que explora uma casa noturna de ares circenses.
O talento, no caso, será Laura, chamada de Little Voice. Ela é tão introspectiva que quase não fala. No entanto, para consolar a alma, ouve música de excelente qualidade. Gosta de cantoras, Shirley Bassett, Judy Garland, Billie Holiday, em especial. Imita as divas à perfeição. Claro, quando Caine descobrir os dotes vocais da garota, tentará explorá-la, no pior sentido do termo. Enquanto isso, Laura procura namorar um garotão tímido como ela, um técnico de telefones praticamente mudo, Bill (Ewan McGregor).
Ninguém vá esperar de "Laura" um filme-cabeça, desses com altas implicações éticas ou filosóficas, vários níveis de "leitura", subtextos e outras aves de mesma plumagem. Em princípio, é apenas boa diversão, uma história gostosa, contada ao som de algumas das mais belas melodias criadas pela música popular do século. Faz bem ao espírito e desopila mesmo fígados mais renitentes. No entanto, visto mais de perto, "Laura" parece um tanto maior que essas comédias românticas bobinhas que se vêem e se esquecem com a mesma facilidade.
Há nele qualquer coisa que pede um pouco mais de permanência no imaginário do público. Pode ser a beleza meio infantil da história. Pode ser a música. Talvez a idéia de base - esperançosa ou ingênua, segundo o ponto de vista do freguês - sobre a possibilidade de vida possível fora de um mundo abjetamente materialista. Há disso tudo um pouco para fazer o encanto desse filme sensível - mas também, e talvez principalmente, o contraste inteligente entre o registro suave da fábula e o realismo árido do melhor cinema social inglês.
Laura, sua voz e seu namorado se movem num plano quase de sonho. Mari e Ray parecem pisar no solo duro (e frequentemente pouco limpo) do mundo dito real. Dessa assimetria entre um patamar e outro nasce o que há de mais criativo nessa narrativa às vezes doce e às vezes inquietante.

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